Era quase passatempo tamborilar os dedos de forma brincante pelo lápis. Depois de um pensar instantâneo, a mão começava a desenhar no papel os sabores, os cheiros, os desejos, os futuros, a vida, até a morte. Letras, curvas, tinta e papel ganhavam formas imaginariamente definidas. E dali surgiam casas, carros, árvores, mãos, olhos, uma infinidade de pensamentos que soltavam para a superfície do branco mundo.
C. Canguru
Era como uma casinha construída na folha criada pelos chineses. Que danado era preciso ter chaminé soltando fumaça pelas bandas vizinhas do Equador. Disparate dispensável, mas permanente no contorno dos dedinhos infantis. E sempre havia uma árvore frutífera, muito provavelmente uma macieira. Em épocas de arranha-céus e muros com cercas eletrificadas e câmeras de monitoramento, a morada saía da ponta mágica que salpica tintas com limites de uma cerquinha de madeira baixa. No céu, existia sempre nuvens feitas de flocos de algodão.
C. Canguru
O pensamento, o lápis, o papel e o voo num balão era plenamente possível sem sair do chão. A neve já nem era tão fria e até esquentava o coração. Sim, o Papai Noel existia, assim como o Minotauro, um fantasma embaixo de um lençol. Eram desenhos vivos ao redor da existência meia irreal e que centralizava o mundo, enquanto o resto dos seres e coisas orbitavam ao redor dos dedinhos.
Os olhos fixos conectavam o papel, havia eletricidade entre os dedos e a mente através do lápis. Qual o sentido de rabiscar música com os dedos, a caneta, a pena, o giz de cera? Cores e odores retransformando imagens gravadas, a tradução de uma nova leitura.