A percepção da velhice às vezes se dá por meio de pequenas coisas. Rubem Braga relata numa crônica o desencanto que sentiu quando, numa recepção onde havia mulheres jovens, foi chamado por uma delas de “senhor”. Essa palavrinha, que ao cronista soou como um palavrão, estabelecia uma intransponível distância entre os dois. Dava a entender ao velho Braga que ele deveria “conhecer o seu lugar”. Era, de certa forma, uma maneira de esquecê-lo.
Neruda escreveu: “É tão curto o amor e tão longo o esquecimento.” O verso também soa perfeito caso se substitua “amor” por “vida”. A vida é breve para o muito de esquecimento que a ela vai se seguir. Daí o apelo hedonista inscrito no Carpe Diem – Aproveite o Dia (embora a melhor parte do que se usufrui da vida ocorra mesmo nas noites).
Syed Aqdas
Vivemos num tempo em que se procura resgatar os velhos, integrando-os à sociedade na plenitude também de seus prazeres. Isso envolve impedir que se apaguem neles as marcas do passado, como se as lembranças da juventude alimentassem o que é vivido no presente.
Jeff Sheldon
Outro dia conversei com um senhor de mais idade e dele ouvi que o pior do seu esquecimento é que ele não era “real”. Ou seja: no fundo ele se lembrava, mas não conseguia fazer com que as lembranças se tornassem claras. Era cono se permanecessem num intervalo entre luz e sombra, com lampejos do passado que se apagavam quando ele buscava captá-los com exatidão.
Amelia Vu
Nossa mente é um malabarista caprichoso, que manipula as lembranças a seu bel-prazer. Tanto esconde umas quanto desenterra outras, fazendo-nos reviver o que estava perdido e reencontramos com emoção. Isso não compensa o tempo passado, é certo, mas nos consola das perdas no presente. E sobretudo nos estimula a vivenciar com resignação e alguma alegria o que vem pela frente, pois a pior amnésia é mesmo a do futuro.