Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
(Vinicius de Morais)
Inexistem registros cronológicos e afetivos que permitam perscrutar os vácuos e abismos que se materializam entre avós, e sobremodo, pais e filhos. Os nossos antepassados, e os atuais pais convivem com minguadas proximidades afetivas que se estilhaçam e ferem os sentimentos dos que, contrariados, ingressaram em idades provectas. Homens e mulheres submetidos à ditadura do tempo, espremidos pelas insanidades corpóreas, vão celeremente caminhando nas veredas dos finais de vida perdendo os laços afetivos com os filhos.
Victor Orf
Os pais como exilados exalando sofreguidão e ansiosos em ter afetuosas presenças recolhem-se a uma paciente solidão. Mergulham nas suas imagens esmaecidas buscando reeditar o alvoroço e alegres alaridos que a vida duramente lhes silenciou. Tentam compreender o porquê da distancia afetiva, do que fizeram de mais ou de menos ao longo do tempo, dos filhos em suas prolongadas ausências se tornarem incapazes de se debruçar sobre o resguardo de uma herança genética e afetiva. Os pais com carinho cuidaram, protegeram, educaram, sem nunca abdicarem de suas difíceis missões e, com frequência foram submetidos ao relento afetivo.
Aos pais, com seus cabelos brancos, apenas lhes são concedidas migalhas afetivas e arredias convivências. Logo a eles, que em dias e noites insones velaram sobre as crianças com os olhares, e as mãos encardidas de afeto e de amor.
Roland Kay-Smith
As paredes da casa, dos quartos, esbranquiçadas, subitamente, já não ostentam os sinais de vida infantil. Já não há mais brincadeiras, disputas, renitentes desobediências, gritos e músicas ensurdecedoras. Já não mais saboreiam sorvetes, pipocas e pudins de leite. Aos pais solitários lhes foram conferidas uma comunicação virtual e infeliz, à distancia. Lágrimas, sofrimentos, solidão, enfim, exílios são provocados pela ausência dos seus. O contentamento e o alívio silente dos filhos se projetam em rarefeitos diálogos e distantes mensagens guindadas pelas novas tecnologias, que os pais não dominam. A eles é dado quase nada. Ficam oprimidos pelo distanciamento, e apenas, sem queixas, se aquietam em seus exílios, em conversas monossilábicas. Estranhos presentes, disfarçados de cuidadores, ou mais grave ainda são relegados em asilos de velhos onde as desumanidades e a violência imperam.
Rodrigo Moraes
Pobre nação brasileira, inculta, sem educação, incursiona no mais completo desrespeito à condição humana que atinge impiedosamente os velhos, as crianças, e os pobres em geral. Somam-se as públicas incúrias, a mais completa falta de solidariedade e de proteção familiar aos elos mais frágeis da sociedade. Triste país que vive hoje a expensas do falacioso e precário “afeto virtual”, precarizando e fazendo sofrer multidões de órfãos e exilados.
“Senhor :
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm”.
(Oswald de Andrade)