A grade de programação do Canal Arts & Entertaimment, da NET, traz “O Grande Kilapy”, filme de Zezé Gamboa, homem que se tornou a mais importante referência do cinema angolano. Mas pode-se, também, vê-lo no Youtube, desde que por isso se pague.
A ambientação surpreende o público paraibano em razão de passagens pela orla e prédios que assinalam a diversidade arquitetônica de João Pessoa. Chamam, particularmente, a atenção dos que moram, ou conhecem a cidade, as cenas tomadas diante da antiga sede dos Correios e Telégrafos e do Liceu Paraibano, prontamente reconhecidos.
Paço Municipal ▪ Antiga sede dos Correios ▪ J. Pessoa, Paraíba ▪Alphabet
Conta-se que a paisagem urbana local encantou o realizador de “O Grande Kilapy” em virtude da semelhança com a Luanda dos últimos anos da colonização portuguesa, onde o enredo também transcorre. Aqui, os tratos com a
Lázaro Ramos (Joãozinho), em O Grande Kilapy
Lázaro encarna “Joãozinho”, amante das noites e das mulheres, um boa vida transformado em herói e retirado da prisão (com a libertação de Angola) para onde fora levado em razão de subtrações do Banco Nacional. Acontece que assim fizera, como bom malandro, em proveito pessoal, embora isso também houvesse beneficiado, secundariamente, amigos revolucionários aos quais repassava parte do roubo.
Ficcional, o enredo é um tanto anárquico. Começa num terraço de Lisboa, onde um lusitano de meia idade, provocado sobre o assunto, relembra as peripécias de Joãozinho. Ficção à parte, há artigos acadêmicos nos quais “O Grande Kilapy” é enaltecido por incorporar aspectos desprezados da memória coletiva relacionada à colonização portuguesa. Mas também sofre o desabono de gente especializada em cinema. A crítica mais recorrente fala mal da atmosfera política do filme. Seria pouco expressiva e, portanto, insuficiente para retratar uma Angola prestes a se livrar do domínio português. O que seria da sisudez dos críticos sem observações dessa ordem?
Luanda ▪ Angola ▪ 1970s ▪Wiki
O termo “kilapy” – está em todas as resenhas – vem da língua kimbundu e significa “golpe”, “tramoia”. Premiado em alguns festivais, o filme tem enredo ágil e palatável. As tomadas são curtas mesmo nos momentos de maior dramaticidade. Não há cenas nem diálogos demorados, enfadonhos.
A Fundação Ormeu Junqueira Botelho, mantida pelo Grupo Energisa e voltada para a restauração de patrimônios arquitetônicos, implantação de memoriais e museus, publicação de livros, exposições didáticas, espetáculos de música, teatro e dança, apõe a assinatura, ainda, no projeto do Cineport.
Li que Ormeu, o patrono, foi um engenheiro civil mineiro que por quase seis décadas presidiu a Companhia Força e Luz Cataguazes/Leopoldina. Defensor do meio ambiente e precursor dos movimentos preservacionistas, o homem chegaria em 1962 à Câmara dos Deputados com pautas de tal ordem. Gente desse tipo sempre fará falta à cena cultural brasileira. Como falta também fazem inciativas a exemplo desse belo Festival de Cinema. Uma pena que não se tenha repetido.