Gabriel García Márquez disse que todos nós temos três vidas: a pública, a privada e a secreta. Veja só. Pura verdade. É exatamente assim, intuímos, vivenciamos, no silêncio de nossa mais guardada intimidade. Uma vida pública, uma vida privada e uma vida secreta. É isso. A nossa vida verdadeira ou a verdade de nossa vida, onde estará, na primeira, na segunda, ou na terceira? Parece-me que na soma das três, porque somos seres fragmentados, feitos de várias partes, vários ângulos, nunca uniformes, nunca inteiriços, daí só mesmo um pintor cubista, a la Picasso, para nos retratar fielmente.
E não é preciso ser psicanalista nem nenhum gênio para perceber que nos encontramos mais à medida que transitamos da vida pública para a vida secreta, passando pela vida privada.
Alex Motoc
Alguém poderá achar que no divã do psicanalista até nossa vida secreta é desvendada. Puro engano. Quem já fez análise ou terapia sabe perfeitamente que nem tudo é revelado pelo paciente, há sempre um resíduo (um segredo?) que permanece oculto, deliberadamente ou não, fora das vistas e dos ouvidos alheios, como propriedade exclusiva, talvez como dignidade última, daquele e daquela que resiste ao desnudamento total. É como se disséssemos “nesta parte de mim, ninguém toca, ninguém penetra”. Não se pense, porém, que essa vida secreta esconde necessariamente nossas vergonhas e abjeções. Nem sempre. Às vezes o que se encobre nada tem a ver com questões morais, são simplesmente fatos ou sentimentos que nem justificariam o ocultamento, mas vá se entender o ser humano! Daí não ser fácil para o analista/terapeuta exercer seu ofício, que depende tanto - ou totalmente – da palavra aberta (ou disfarçada) do analisando.
Jouwen Wang
É complexa nossa individualidade, como bem percebeu Garcia Márquez. E aqui entra a delicada questão do individualismo, que não se confunde com egoísmo, como equivocadamente pensam alguns. Individualismo que é sinônimo de humanismo, na medida
Sui Ron
Manuel Bandeira no poema Arte de amar escreveu que os corpos se entendem, mas as almas não. Sim, não é fácil o diálogo das almas, tomadas aqui no sentido do “eu” individual de cada um. Na verdade, todo diálogo é difícil. Nenhuma comunicação é fácil, nem a dos corpos, com sua linguagem vária e nem sempre clara.
Mas voltemos à nossa vida tríplice - e una. Tal como a Trindade dos cristãos, três pessoas em uma. Nenhuma vida é, portanto, um livro aberto. Quer nos enganar e se enganar quem afirmar que é transparente. Não. Somos mais uma Caixa de Pandora, cheia de surpresas. De tal modo, que em muitos casos é melhor não abrir.
Mário de Andrade escreveu que não era apenas um, mas trezentos, trezentos e cinquenta. Somos todos muitos, como o poeta. Provavelmente mais que trezentos e cinquenta.