Cronista inspira cronista. Acontece muito. A gente lê uma crônica de outro autor e se sente tentado a abordar tema semelhante ou parecido sob ótica diferente – a nossa. E desse processo, diga-se, têm resultado, não raro, bons textos; às vezes, até melhores que os originais. Isso vai muito na linha de que em literatura nada se cria de verdadeiramente novo desde os gregos e Shakespeare, o que é verdade, penso eu. Não se trata de plágio, claro, mas apenas de dar um outro enfoque ao assunto. Muitas vezes, toma-se apenas um pequeno detalhe, uma rápida passagem, uma mera citação do texto original, e, partir dali, cria-se um cenário novo, um olhar distinto, uma escritura que nada – ou muito pouco – tem com o ponto de partida.
Mas ela própria, agora aos 68 anos de idade, confessa que finalmente rendeu-se ao encanto das edições especiais. Demorou muito, mas aconteceu para ela não digo a vitória da forma sobre o conteúdo, o que não seria nunca desejável, mas, digamos, a vitória da valorização da forma ao lado conteúdo, sem prejuízo deste. Vejo nisso o triunfo da dimensão estética da vida, tão desprezada ou desconsiderada por muitos, pessoas que, por diversas razões, passam a existência ao largo da beleza, indiferentes ao belo, em suas múltiplas manifestações.
É claro que geralmente a estética tem um custo, nem sempre ao alcance do bolso da maioria das pessoas. O que é belo e de qualidade normalmente é mais caro, compreende-se. Mas às vezes a diferença de preço é tão pouca! E quantos não decidem, mesmo podendo, pelo mais barato – e, consequentemente, mais feio. Falta a esses argentários, não o dinheiro, mas aquela dimensão estética da vida.
O bom é que não é preciso ser rico para cultivar a estética. Basta um pouco de bom gosto e sensibilidade, e o problema está resolvido. Não raro a casinha simples bem arrumada agrada mais aos nossos olhos que a mansão ou o apartamento imenso. O bom gosto é como o bom senso: todo mundo pensa que tem, são as qualidades supostamente mais democráticas que existem. Mas o fato é que ele não é privilégio dos mais afortunados; sopra onde quer, como o vento.
Haverá (sempre há) quem pense que num país como o Brasil, em que milhões passam fome, não se justifica falar em estética. Penso que uma preocupação não exclui a outra, com prioridade, claro, para os famintos. Estou convencido de que mesmo em meio à maior penúria, sempre sobrará um espaço, mínimo que seja, para se escolher o belo. A miséria, sabemos, é feia, mas nela, repito, sempre poder-se-á plantar uma sementinha de beleza. E isso, óbvio, faz e fará toda diferença.