Há poucos dias, ao final de uma missa votiva pela mãe de um amigo fraterno, dirigi-me ao cantor que participara daquela celebração para cumprimentá-lo pelo excelente desempenho, e, fui surpreendido com inesperadas manifestações de alegria dessa pessoa, a quem não reconheci de imediato, procedimento este que intimamente considerei uma desatenção imerecida, para com quem me recebia com tanta alegria.
Fiz grande esforço, cavouquei os mais recônditos desvãos de minha memória já gasta, convoquei todos os neurônios ainda disponíveis e terminei por recuperar algumas poucas informações sobre aquela pessoa que me acolhia tão calorosamente.
Kartaby Aryal
Infelizmente, esse feliz reencontro, com lembranças as mais variadas, fez-me recordar, intimamente, um traço da personalidade de muitos desses socorridos, dos quais, vencida a crise, não recebi um mínimo obrigado.
Algumas vezes, até, certo menosprezo.
Como muitos desses ingratos já se foram, alguns dos quais já nem me vêm mais à lembrança, terminei por rememorar uma estória jocosa, ouvida há tempos, que dizia de uma senhora, já bastante chegada em anos, que, ao final de uma homilia, versando sobre o perdão e a gratidão, proferida com bastante fervor, pelo pároco da
Michael O'Sullivan
Entusiasmado, o venturoso pároco convocou aquela senhorinha ao pé do altar e, depois de exaltar aquela demonstração de verdadeiro amor cristão, perguntou-lhe o que fizera para alcançar tal proceder. Ao que ela respondeu: “é, sêo Padre, que todos aqueles miseráveis que me fizeram algum mal, há muito já se foram a prestar contas aos cãos dos infernos!”
Ao final desse alegre reencontro e das demonstrações de amizade recebidas, com a recordação de um momento jocoso da vida, vi-me, então, do outro lado do viver, este bem mais agradável, pois, embora de cunho saudosista, diz muito da alma popular, como cantam Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, no samba “Quando eu me chamar saudade” , afirmando:
“Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração.
Alguns há até de chorar,
E querer me homenagear,
Fazendo de ouro um violão.
Mas, depois que o tempo passar,
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora!
Por isso que penso assim,
Se alguém quiser fazer por mim,
Que faça agora.
Me dê as flores em vida!
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar os meus “ais”...
Depois que eu me chamar saudade,
Não preciso de vaidade,
Quero preces e nada mais.