Sozinho, em casa, onde uma indisposição me manteve por todo o dia, sou acordado pelo telefone. Falava-me, do Recife, um amigo de quem eu não tinha notícias há um tempão. Obtivera meu número de um velho colega de escola com quem topara, inesperadamente, na Praça de Alimentação do Shopping Guararapes. Conversa demorada, dessas que hoje se travam na promessa de taxa zero comumente feita pelas operadoras de telefonia à distinta clientela. Como vai fulano? Como vai sicrano? E, lá para as tantas, os indispensáveis pedidos de informação (lá e cá) sobre o paradeiro de uma ou outra antiga namoradinha.
Como são injustiçadas as meninas que nos passaram pela vida sem grandes momentos. Aquelas que tivemos ao lado, episodicamente, enquanto desejos maiores
Bruno Sousa
E, aqui, faço o apelo. Ninguém tome o rumo da conversa como prerrogativa masculina, coisa de machos numa fase em que os hormônios em ebulição não dispensam a mínima oportunidade. Sem dúvida, eu e você, meu compadre, já fomos passatempo de alguém, de uns diabinhos pelos quais, ocasionalmente, caímos de quatro sem dó nem piedade.
A fim de esclarecer bem as coisas, o tema não trata do apego por uma noite, ou do “ficar” de hoje em dia, na expressão dos nossos filhos e netos. Dizem respeito, isto sim, aos namoros que se repetiam e findavam sem o menor constrangimento. De repente, deixava-se de se ver e pronto.
Este meu amigo frequentou comigo os bancos do Colégio Santa Júlia, na João Pessoa da segunda metade de 1960. Do outro lado da esquina, no pátio da Igreja, o Centro Social Padre Hildon Bandeira, nos puxava para o baile noturno dos sábados. Era época dos Beatles, da Jovem Guarda e, portanto, dos conjuntos de ieieiê, com baterista, contrabaixo e duas guitarras. Mas gostávamos mesmo era das músicas lentas, de abraçar cinturas e de mãos femininas no pescoço durante a dança "cheek to cheek".
The Phope
Dividíamos, os quatro, o mesmo muro nos intervalos do baile. E frequentávamos outros muros quando levávamos aquelas duas para suas casas no mesmo bairro e em ruas diferentes. Mas, afinal, quem não tem dessas histórias para contar? Quem já não desfrutou desses momentos que envolvem e enternecem os idosos que hoje somos dado o desejo do resgate, embora risível, de instantes da nossa mocidade, daquilo que um dia fomos e vivemos?
Ryan Holloway
Percebo, então, que o transcurso dos anos nos afeta de modo idêntico. Todos nós, indistintamente, habitamos uma Rua Ramalhete e, no íntimo, frequentamos os bailes do Clube da Esquina. À nossa maneira, pomos nossos olhos de rapina em meninas saídas do muro do Sacré-Coeur e sonhamos com os Beatles. “Será que algum dia eles vêm aí?”, perguntou Tavito e pergunto eu, septuagenário, com minhas carências.
Um doce, aquela moreninha. Algumas de suas amigas me contaram que ela recusava três ou quatro convites para a dança enquanto eu ali não chegava. Pessoalmente, eu notava que pedia para sentar no momento em que me via. Certa vez, comentei o quanto era saborosa a colônia que usava e nunca mais senti nela outro cheiro. Nem mesmo quando me apresentou aos pais num terraço onde estive por uns três meses.
Nunca mais soube dela. A conversa com o amigo é que me trouxe, por completo, essas velhas lembranças que agora me chegam com as notas e as vozes de “Renato e Seus Blue Caps”. E com uma certa fragrância floral embalada num rótulo que também se perdeu no tempo. Não que eu me arrependa, viu, Dona Miriam?