Há 63 anos, em 25 de Julho de 1959, consumou-se a morte de meu pai. Morrer aos 51 anos de uma forma dolorosa e impiedosa como a dele será sempre inaceitável e injusto. Sem rancor, a única coisa que ele repetia constantemente – "Minha Virgem Santa Mãe Deus, me conceda mais alguns anos para meus filhos, eles são tão pequenos ainda". Não fora atendido ao tão desejado e doloroso desejo. A ele foi concedida apenas a graça de interromper o sofrimento. Como o previsto, o seu generoso coração não resistiu ao excesso de morfinas que contribuiu decisivamente para encerrar o seu ciclo infernal de dores lancinantes provocadas por metástases ósseas.
Gadiel Lazcano
Lembro-me bem do seu olhar como se tivesse iluminado. Na medida em que ia deslizando sobre nós, refletia paz e serenidade. Hoje, mais do que nunca, tenho a convicção que, naquele epílogo, o momento supremo se tornara uma enorme libertação. Não havia choro, só o silêncio reinava absoluto. Soluços e lágrimas foram reprimidos para não aumentar o sofrimento da partida. Nada de medo, nenhum gesto desesperado.
Meu pai me transmitiria à ideia de que a sua morte seria o momento de um encontro supremo com a paz. O rompimento com a dor de sempre. Acho ele que vira, naquele instante, a morte como uma passagem necessária para ele, e para nós, embora tivesse lutado para postergá-la. Partindo, estava se liberando de um brutal flagelo físico.
Dewang Gupta
Com a morte de meu Pai, tive o primeiro e trágico momento de viver a morte. Anos depois, ao ler a dramática novela de Tolstoi "A Morte de Ivan Ilitch", obtive a compreensão de todas as fases dos moribundos prestes a morrer. Da estupefação face à injustiça divina quando são projetados para o fim, da agonia, do desespero, da resistência, do inconformismo, e finalmente, da aceitação e da preparação exalando o desejo de ter que partir. O ultimo ato é regido definitivamente pelo desejo de se liberar do sofrimento que a vida impôs. Paradoxalmente e tragicamente, os que vão morrer buscam numa tranquilidade terapêutica a generosidade atitude ao poupar o sofrimento dos seus que se agarram desesperadamente a um eventual milagre.
A obra de Tolstoi me ensinou que, pior do que morrer é viver desesperadamente no sofrimento, ou não saber viver. A morte tem uma energia liberadora, que como diz Albert Camus: o que seria da vida senão existisse a morte.
Wonderlane
No dia três de maio de 2021, fui ser acometido de um grave bloqueio atrioventricular com arritmia cardíaca grave e braquicardia que me provocou um ritmo de doze batimentos (BPM) do coração, com uma inevitável parada cardíaca a qualquer momento. Teria sido aquele o dia da minha morte. Em meu socorro, veio um dos meus filhos. Encontrava-me no meio da natureza no Engenho Laranjeiras, e feito um bólido me levou ao Hospital Samaritano. Graças à pericia médica com o implante de um marca passo, in extremis, sobrevivi. A Providencia Divina me concedeu a continuidade da vida.
Ian Kuik
Hoje, mais do que nunca, “estou pronto, em paz, feliz como se estivesse para morrer”. Aos meus, que ficam que diante da inexorável da fatalidade, o mais prudente é se deixar envolver pelos véus brancos que protegem as lembranças dos momentos felizes.
Não delegarei a ninguém os meus lapidares desejos que já são: Adormeci contrariado. E como acontece a qualquer criança, não mais acordei. Sonhos lindos e findos.