Fizeram ver a Marizete que o mundo era composto de milhões de pessoas iguais a ela. Que ela não era sozinha na imensa e infinda treva em que vivia. Que havia dia e que havia noite. Que a noção do dia era exatamente aquele calor que ela sentia no rosto. O calor, os ruídos, os passos, as falas e as buzinas. Que cada ruído, passo ou fala era sinal de alguém fora ela, milhões e milhões sobre a face da Terra.
Também lhe disseram que a associação do frio ao silêncio significava a noite, e a maioria, como ela, recolhia-se ao sono.
Jackson David
Então Marizete associou-se à palavra da Criação. Não viu mas achou que era bom. “Deus fez a luz e viu que a luz era boa.” Ela nem viu nem achou, mas nem por isso perdeu a noção de Sua bondade. Bondade geral, repartida naturalmente para cada membro da vida. Ela só não experimentava a esplêndida bondade de ver.
Ensinaram-lhe a rezar porque da oração é que advinham todos os bens. Agradecer a Deus pelo café da manhã, agradecer pelo pequeno almoço, agradecer pela magra ceia. E ela fazia com gratidão e fé: “Abençoai, Senhor, a nós e a estes dons que a vossa liberalidade nos concede.”
Um dia faltou dinheiro e liberalidade. Ela não esqueceu de orar, não esqueceu de pedir, mesmo que o pão não chegasse.
Zsa Fischer
E fez um esforço penoso para aprender sem ver. O tato que lhe servia de guia havia de servir no aprendizado. Começou a ler com os dedos, somar com os dedos: ensino fundamental, ensino médio, faculdade, formatura, tudo lhe chegando pelos condões táteis dos dedos.
Hoje não sei o que é de Marizete. Onde está, o que fez, o que conseguiu. Se notou alguma diferença entre o mundo das trevas e o mundo da luz. Entre o mundo bom e auspicioso da escuridão e o mundo de olhos abertos e corações fechados.
Ninguém me dá notícia de Marizete.