Vi, em página do Facebook, uma foto antiga daquilo que por muito tempo foi o único sobrado de Pilar. Nos meus dias de menino, ali moraram duas famílias de comerciantes. A do Seu Nequinho, ainda está bem viva na memória porquanto guardo amizade estreita com dois de seus filhos: Everaldo Pontes e Zezita Matos. Sim, estes mesmos que os amantes do teatro e do cinema conhecem como atores de grande talento. Também assim os conhece o público numeroso de algumas minisséries e novelas da Globo.
O encontro com Zezita - também no elenco de uma novela da Globo, a "Velho Chico" - deu-se num dos corredores do Centro Universitário de João Pessoa, onde estive, tempo atrás, a propósito de reportagem cujo tema agora não me ocorre. Acho que ela então chefiava um dos departamentos do Unipê.
Sempre que nos encontramos, eu e os filhos do Seu Nequinho, o bate-papo gira em torno dos nossos pais e irmãos. “Como anda fulano”, “como está sicrano” e por aí vai. Pergunto sempre por Nildinho, mais velho do que Everaldo e a quem há muito não vejo. No Pilar da nossa infância, o térreo do sobrado era ocupado pela mercearia da família. Depois, ali também moraram o farmacêutico Cícero, sua mulher e filhos. Do mesmo modo: a família no andar de cima e a atividade comercial, embaixo.
Alan Santos / Palácio do Planalto
O prédio tem história. Em priscas eras, ali morou o comendador, prefeito e dono de armazém Quinca Napoleão, homem que se tornou desafeto de Antonio Silvino. Zé Lins refere-se ao episódio em dois ou três dos seus livros. Disposto a vingar-se, o cangaceiro voltou a Pilar numa noite escura e subiu aos aposentos familiares sem que ali estivesse o dono da casa. Dona Inês, a esposa, era mais valente do que o marido.
Arq. Nacional
Eis um trecho de “Fogo Morto”: “Antonio Silvino atacou Pilar. Não houve resistência nenhuma. A guarda da cadeia correra aos primeiros tiros e os soldados do pequeno destacamento ganharam o mato à primeira notícia do assalto. Dona Inês recebeu-os com uma coragem de espantar. O capitão Antonio Silvino pediu as chaves do cofre e ela, com o maior sangue frio, foi-lhe dizendo que tudo o que era de chave estava com o marido. O cangaceiro ameaçou botar fogo no estabelecimento e Dona Inês não se mostrava atemorizada. Era uma mulher pequena, de cabelos brancos, de olhos vivos. Fizesse ele o que bem quisesse. E ficou na sala de visitas tranquila, muda, enquanto os homens mexiam nos quartos, furavam colchões, atrás do dinheiro do velho Napoleão. (...). Antonio Silvino ameaçou a mulher, mandava passar-lhe o couro e ela, muito calma, só dizia que nada podia fazer”.
Difícil perceber em Zé Lins o que é ficção ou realidade. Mas o fato é que suas histórias têm muito da memória familiar, dos casos ouvidos e repassados à mesa do Corredor.
Antonio C. Silva
O Sobrado de agora já não é aquele da minha infância. Foi mutilado, perdeu os parapeitos de fabricação inglesa dispostos em quatro sacadas frontais, além de todas as janelas. Zé Lins, que tornou Pilar, sua gente e suas paisagens conhecidas nos quatro cantos do mundo, por livros traduzidos em mais de dez idiomas, deve ter se revirado no túmulo.