O amor pode, sim, acabar, como praticamente tudo na vida, inclusive a própria, como sabemos. Esse fim do amor, porém, não é uma fatalidade, mas uma possibilidade, de tal modo que é sob esse ponto de vista que a célebre crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada exatamente de O amor acaba, deve ser lida e interpretada, penso eu.
O poeta e cronista mineiro, tão amigo dos conterrâneos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, inicia essa crônica, publicada originalmente na extinta revista Manchete, em 16/5/1964, afirmando peremptoriamente: “O amor acaba”. E aí ele começa a desfiar as mais diversas formas e
Michal Matlon
O cronista escreve: “no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade, em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro”. É tão frágil que “uma carta que chegou depois, o amor acaba” e também “uma carta que chegou antes”. Uma simples “palavra, muda ou articulada, e acaba o amor”. E assim segue o cronista/poeta, até chegar ao final do texto com uma proclamação que sabe a esperança e não a desalento: “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba”. Ainda bem, digo eu – e certamente você, leitor/leitora. O amor está sempre acabando e sempre recomeçando, isso é que é importante, já que o amor, sabemos, não pode faltar nunca, seja de que forma se apresente.
Suhail Ra
Pois acredite o leitor que outro cronista famoso, Carlinhos Oliveira, que brilhou no Rio de Janeiro, no Jornal do Brasil, nos anos 1960 e 1970, escreveu, para contraditar Paulo Mendes Campos, uma crônica intitulada O amor começa, sendo essa talvez a causa da desinteligência havida entre os
Adam Przewoski
Percorri os livros de Carlinhos Oliveira procurando a dita crônica, mas não tive êxito. Encontrei-a, após alguma pesquisa, na edição do livro do próprio Paulo Mendes Campos pela Companhia das Letras. Ironia, não? Mas vamos ao que interessa.
Oliveira inicia sua crônica perguntando: “E quando começa o amor, Paulo?”. Vê-se logo, portanto, que o que lhe interessa não é se o amor acaba e sim quando o amor floresce. Uma provocação, sem dúvida, mas também um outro estado de espírito, digamos, mais otimista (não necessariamente mais sábio). O cronista segue arrolando situações em que o amor pode começar e conclui o texto da seguinte forma:
Mas com qual dos dois cronistas ficar? Com os dois, penso eu, pois o amor tanto acaba como começa todos os dias, em todos os momentos e por infinitas razões. É plausível supor que quando os autores escreveram seus respectivos textos, um estava vivendo o fim de um amor, ao passo que o outro estava começando. É uma hipótese. O que prova a volubilidade do amor, esse sentimento fundamental, que surge e se extingue ninguém sabe como nem quando nem porquê.
E para concluir com um astral mais alto, que a vida precisa disso, não esqueçamos os inumeráveis amores longevos, que não acabam nunca e entram pela eternidade, desafiando os céticos, os amargos e os desiludidos. O amor dos meus pais foi desse tipo – nunca acabou. E é para esse amor imortal, cada vez menos comum, que bato palmas reverenciais.