Pequenino de tamanho, franzino, fala mansa, mas um gigante do ponto de vista moral e científico. Assim foi – e continua sendo – o professor Natanael Rohr, que nos deixou há poucos dias, vítima de complicações da covid. Até nisso, ele, que sempre foi igualitário, igualou-se a milhares de brasileiros que não resistiram ao vírus. Sua história de vida é notável, mostra como, pelo esforço familiar e pessoal e através do conhecimento, pode-se superar obstáculos e conquistar um lugar digno na sociedade.
Nascido na cidade de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, em família modesta, Natanael teve de desbravar praticamente sozinho sua trilha na selva do mundo sempre hostil aos que não tiveram a sorte de um berço mais aquinhoado. Saiu de sua aldeia ainda jovem para estudar, percorreu caminhos solitários e árduos, até chegar à
Steve Cadman
Em 1972, veio para a UFPB, onde ocupou inúmeros cargos acadêmicos e administrativos. Foi professor titular no Departamento de Física, Chefe de Departamento, Coordenador de Curso, Pró-reitor e membro dos Conselhos Superiores da instituição, além de presidente da Associação dos Docentes – ADUFPB. Depois, já aposentado da universidade, foi dirigente do SEBRAE/PB e Secretário-Adjunto da Educação na Prefeitura de João Pessoa. Em todos os lugares, deixou a marca da lhaneza e da retidão, emblemas de sua personalidade e do seu caráter admiráveis.
Conheci-o no início dos anos 1990, quando ele coordenou a campanha do professor Neroaldo Pontes à reitoria da UFPB. Ambos vinham de uma atuação operosa à frente da ADUFPB e sempre foram muito ligados. Uma vez eleito, Neroaldo nomeou-o como Pró-reitor de Planejamento e a mim como Procurador-geral da instituição. Passamos então a conviver, profissionalmente, mais de perto, o que me proporcionou a oportunidade de observá-lo e conhecê-lo melhor. Sempre sóbrio, discreto e competente, deu ao reitor, juntamente com o professor Jader Nunes, então Pró-reitor de Administração, a tranquilidade administrativa para gerir a universidade em tempos difíceis, tempos de orçamento curto e de amplas agitações políticas internas, com os sindicatos de professores e de funcionários sempre na oposição e os estudantes sempre insatisfeitos, como é de praxe. Aprendi ali e então a admirá-lo e a respeitá-lo. Era um homem de bem. Sempre fora e sempre seria.
Camarax
Mais que um militante, parece-me, Natanael foi um idealista, no mais alto e generoso sentido da palavra. Sonhava com um mundo social e economicamente mais justo, com menos autoritarismo, menos desigualdades,
Aduf-PB
Casado com Maria dos Mares, a talentosa artista plástica, formou um casal distintíssimo. Sem filhos, escolheram amigos diletos para, com eles, formar uma família, na base dos afetos verdadeiros. A modéstia, quase monástica, porém elegante, habitou sua casa acolhedora e nela a arte fez despretensiosa morada. Visitei-os algumas vezes, nos idos dos anos 1990, ainda na aprazível casa da beira-mar do Bessa, e, lembro-me perfeitamente, senti naquele lar uma atmosfera de paz e de beleza, quase um claustro, no que este tem de sobriedade e de silêncio.
Em João Pessoa, ergueu a sua tenda e naturalizou-se tão somente pelo afeto, sem necessidade de diplomas e títulos oficiais. Aos poucos, foi conhecendo a terra,
Acervo Familiar
Num desses últimos encontros amicais, anunciou, jubiloso, que pretendia dedicar o mês de julho a uma viagem com Maria, se não me engano a Brasília, onde visitaria familiares dela, que a afetividade também fizera seus. Estava aparentemente bem e feliz. Entretanto, quis o Pai, o destino ou o acaso que tudo fosse diferente. Que podemos nós, pobres mortais conhecedores de nossas precariedade e finitude, fazer ou dizer, senão aceitarmos a fatalidade, sem renúncia do sentimento de perda e da tristeza por sua ausência?
Nasa
Nas futuras reuniões da Confraria, seu lugar de costume nunca estará vazio. Sua presença inesquecível continuará lá, de alguma maneira enriquecendo, como sempre fez, seus amigos saudosos e fiéis.