Pintei muitos quadros com a figura de Cristo, assim como escrevi, sobre ele, os romances A VERDADEIRA ESTÓRIA DE JESUS - que adaptei para o teatro e montei -, e RELATO DE PRÓCULA, além do "tratado poético-filosófico" ESSE É O HOMEM, com algo muito forte, também, no novo "tratado" que vem por aí, 1/6 DE LAJANAS MECÃNICAS, BANANAS DE DINAMITE.
- E ainda diz que não é religioso.
- Bem, tenho um romanceamento do HAMLET, quadros sobre ele, e - em ZÉ AMÉRICO FOI PRINCESO NO TRONO DA MONARQUIA e em outro romance, SHAKE-UP - mostro que A Bagaceira tem tanto dele quanto o Ulisses de Joyce tem da Odisseia de Homero. E Hamlet não existiu. Trata-se, como diria Harold Bloom, da "invenção do humano". Daí a enorme importância dos dois.
WJ Solha
- Qual?
- Um retrato de Cristo.
- ... OK.
Nos dias seguintes o problema não me saiu da cabeça. Vasculhei, na memória toda a pintura universal envolvendo Jesus, nenhuma das representações me convenceu, nem a dos filmes. Max von Sidow n’A Maior História de Todos os Tempos, do George Stevens? Nem pensar. O nazareno do Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini? Também não. Me detive em Jeffrey Hunter, em o Rei dos Reis. Pareceu-me ter o tipo físico, faltando-lhe carisma, pois eu me perguntava como seria o cara que, passando lá no Banco do Brasil me dissesse: "Deixe tudo e me siga!" - e isso me levasse a largar meu birô e a agência na hora.
Fosse o que fosse, o fato é que eu saíra colecionando fotos de homens marcantes, tomando os olhos de um, a boca de outro, o nariz de um terceiro e fiz o quadro.
WJ Solha
- "Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,
Sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos.
Quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos."
Como se vê nas cartas de van Gogh ao irmão Théo, cada quadro tem uma longa história.