Quarenta anos atrás – vez que o jornal O Norte ainda funcionava imbatível na veneranda rua dos padres, a Duque de Caxias – entra o editorialista e cronista Nathanael Alves no frege da redação, dessa vez com ar alvissareiro. Põe a mão no meu ombro e, falando a dois, felicita-me por “passar a ser autor estudado em sala de aula.” E ressalta em sua ironia benigna: “...no lugar de Raquel, de Rubem Braga, de Henrique Pongetti e outros monstros sagrados”.
Agora, neste ano de 2022, vem Elisa Damante Ângelo e Silva e, elegendo a crônica para dissertação do mestrado em Letras ante nossa Universidade, se dispõe a utilizar nesse trabalho a prata de casa, em lugar dos consagrados, historicamente, pelas matrizes nacionais da nossa cultura ou pelo mercado de recíproca influência.
Acervo familiar
Revivi na surpresa a mim feita pela jovem mestra de agora, decorridos quarenta anos, a emoção provocada há décadas, quando outra jovem mestra na mesma idade de Elisa, Ângela Bezerra de Castro, num arbítrio novo, submetia a nossa escrita, a minha e a de Nathanael, à leitura na sala de aula. Isto num tempo em que a própria crônica, com raras exceções da visão pedagógica, era material de segunda. E numa fase em que a crônica local, em seu estilo próprio, não ia além de dois ou três autores, Juarez Batista o mais bem situado.
Virginius andava pelo Recife e escrevia ensaios, como os que dedicou a Graciliano Ramos. Veio ser cronista em João Pessoa, o que me leva a pensar na influência da terra no espírito de quem chega e bem demora. Do seu antigo Ponto de Cem Réis, dos seus senadinhos públicos e particulares que mudaram de lugar, de meios mais imediatos ou prontos de informação e comunicação, mas sem mudar de temática ou de abordagem.
Railson Damasceno
Elisa Damante me escolhe como um cultor da cidade. Todos somos.