O seu amor ame-o ou deixe-o, livre para amar, livre para amar...
Caetano Veloso
Caetano Veloso
Na juventude (mas nem sempre), por vezes a gente se afasta de quem temos uma relação amorosa; da famosa força avassaladora da paixão. Achamos que podemos fazer a vida nos esperar. Mas a vida não espera. E, se queremos recuperar o tempo perdido, é preciso que se Corra Lola Corra para ver se ainda dá tempo de remendar o estrago. Na maioria das vezes não dá! Mas também que bom que se tem arroubos!
Quando vejo a imagem de um vulcão em erupção, com suas lavas encadescentes montanha abaixo, esse é o quadro que imagino para representar alguma tragédia pessoal, intransferível, e de difícil compreensão.
Uma vez, assistindo ao filme Perdas e Danos (Louis Malle, 1992), cheguei a compreender um pouco o fato de que tudo o que fazemos tem consequências. Fora de controle. Um carro desgovernado. Velocidade máxima. Roleta Russa! Cicatrizes para o resto da vida. Não, não tenho rancor, nem gastura mais. Já tive todas as chagas, já lambi minhas feridas, e nem sequer era Maria Madalena.
O olhar alegre e poético diante da vida pode ser antídoto para todos os males e tragédias pessoais e amorosas. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Mas, antes, tocamos um dobrado de sofrimento, silêncios atormentadores, pesadelos, doença, tristezas infinitas. Um infinito ao meu redor! Fica o saldo de vida, de fazer parte, parte do que não gosto inclusive. Mas essa sou eu. Meu nome é nada! Ah! Emily! Você salva o que ainda parece não parece ter salvação!
Éramos jovens. E sabíamos. Esposamante. Olhares furtivos. Olhares escondidos. Quem sou eu sou eu? E tu? Quem és? Por acaso me conheces? Nos ardores da paixão magoamos e fomos magoados. Traímos e fomos traídos. Pensávamos que a vida esperava. Abria parênteses. Quão ingênuos éramos! Pisávamos na jaca. Chutávamos os baldes! Jogávamos merda no ventilador! Tantas coisas tantas! Ouvia Caetano e os doces bárbaros – e qualquer maneira de amor valia a pena. Fé cega! Faca amolada! Je t’aime, moi non plus! Viajávamos. E, para além de Goiana, a pupila dilatava. Outros mundos,
Um tsunami. Dois. Três. Ondas sorrateiras. Crueldades sem fim. Invejas. Trair. Trair às claras. Às escuras. Meia lua e um quarto! Desejo e Reparação! Irreversível! Vida minha vida, olha o que é que eu fiz! Nós que nos amávamos tanto! E para onde foi todo o amor? Vai passar. Vai passar. Espere por mim! Frescobol! Abandono. George Benson Canta. Meus males não se espantaram? Os seus? Encantou-se com uma ave de rapina. Uma usurpação. Para mim, basta um dia! A gota d'água! Saudade de mim e da minha vida. Ao ver você na calçada. Do outro lado. Do lado de lá. Com outra vida. Vida minha. Minha vida. Oh pedaço de mim, a saudade é como arrumar um quarto de uma vida que já foi minha! Hoje, olhando pelo caleidoscópio. Tudo um retrato em branco e preto. Morena dos olhos d'água? Cadê você? Chico Canta! Folhetim! Começar de Novo! Malu Mulher e debulhava-me em lágrimas!
Uma falta de ar. Um suspiro. Um pranto. Um quarto de pânico. Uma insônia maldita. Um gole extra. Um mergulho na boemia. Cachaça. Drogas. Rock. Zona úmida. Ladeira abaixo. Estragos imensos. Por onde andava minha in-sanidade? E a sua? Vagando pelo Cabo Branco? À pé até o sertão. Até a curva do rio! Não, não posso. Não quero. Não, não quero falar! Sumiu na noite. Calada noite. Um corte na barriga. Um soco no estômago. Um choro no chuveiro, enquanto tomava banho. O único canto todo meu. Curativos da alma. Uma alma imoral! Uma bolinha de tênis do filme de Woody Allen,
Foi o tempo. Foram todos. Ana que amava José que amava João que amava Joaquina, Bingo! demorou para que eu entendesse essa ciranda. Essas visitas inesperadas. O inimigo que veio de perto. Que morava ao lado. Que dormia comigo. Que... Eu acreditava em amor romântico. Em lealdade. Em cumplicidade. Em ter um amor todo meu. Qual nada! Ninguém era de ninguém. Ninguém me ama, ninguém me quer! Muitos vinhos no Boiadeiro. Muitas ondas do mar. Vamos a la playa? E lá vinha a serpente disfarçada. Comer dos meus pirões. Querer a minha vida. E você? Tão mago. Tão cúmplice? Tão arredio? Se bastava hein? Com as visitas. As amigas das visitas. Anos 70. Queria que tudo mais fosse pro inferno! Annaa!! Fiquei amarga. Fiquei zumbi. Fiquei doente. Sonhava. Sonhava. Sonhava que tudo era um pesadelo. E que a vida esperava. Não passou. Não acordei. Não esperou!
E esse vulcão hein? Um dia jorrou lavas de desejo. Fogo abaixo. Fogo adentro. Fogo fátuo. Fogo.
Fumaças restaram. Rastros. Ruídos. Incêndios! De um dia. Para mim, basta um dia. Somente um dia. Para lembrar. Esquecer. E pensar em todo esse ciclo. Da vida. Minha vida. Também a sua.
Até hoje, um vulcão que não dorme. À espreita.