A partir de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, o governo militar passou a exercer, de forma mais acentuada, a censura às manifestações culturais do país. Jornais, revistas, livros, espetáculos, filmes e outras produções da cultura ficaram submetidos a uma censura prévia do governo federal. A música popular, por sua grande penetração nos diversos segmentos da população, não poderia deixar de fazer parte das principais atenções dos censores.
Quando se fala nos compositores mais censurados, naquele período sombrio, sempre são citados os nomes de Taiguara, Chico Buarque, Gonzaguinha, entre outros, cujas músicas eram vetadas pelo caráter de contestação ao regime militar. Mas, a ação da censura não se limitava apenas às canções de vertente política. Compositores de canções românticas ou até mesmo de músicas com letras divertidas, que não tinham nenhum viés contestatório,
Odair José ▪ lastfm
No início dos anos 1970, Odair José despontava nas paradas de sucessos com a música “Eu vou tirar você desse lugar”. Em depoimento para o livro “Mordaça História de Música e Censura em Tempos Autoritários” (João Pimentel e Zé McGill – Sonora, 2021), o compositor relatou que foi chamado ao Departamento de Censura para dar explicações sobre a sua música:
“Lá me informaram que a canção – que, naquele período, era o maior sucesso em execução no país – tinha uma frase imprópria para aquele momento, justamente o título [...] (a música) iria continuar como estava, liberada. No entanto, fizeram a seguinte observação: que eu tivesse mais cuidado em escrever as minhas letras, dali para frente, para evitar vetos, já que a partir daquele instante meu trabalho teria um acompanhamento mais severo. Me lembro de ter explicado que a letra falava do amor de um homem por uma prostituta, o que deixou o censor enfurecido. Ele disse que o que eu estava propondo era um desrespeito à família brasileira”
Apesar de Odair José haver sido convocado pelo Departamento de Censura para explicar o título da sua canção “Eu vou tirar você desse lugar” — que, na paranoia daqueles tempos, poderia sugerir o afastamento dos militares que estavam o governo —, o compositor acabou sendo advertido por outra das preocupações censórias da época: a defesa da moral. O ambiente daquele momento de temor generalizado foi, magistralmente, representado pelo cartunista mineiro Henfil no seu personagem “Ubaldo, o paranoico”.
Como a letra da música — que tinha o título “O Burro” — falava em “condecoração” e “medalhão no peito”, os censores imaginaram que aquilo só podia ser uma crítica disfarçada aos militares que se encontravam instalados nos principais cargos da República. Conforme contou Elino Julião em uma entrevista, os censores pediram para que ele cantasse a sua canção que estava sob suspeição:
“Eu vejo um cidadão desocupado / No salão agraciado ganhar condecoração / O burro que trabalha pra morrer / O burro ninguém vê nem sequer ganhar ração / Trabalha, mas ninguém lhe reconhece / o burro é quem merece ter no peito um medalhão”.
Em seguida, segundo relato do compositor, os censores pediram-lhe que mostrasse algumas de suas músicas, para que fosse avaliado o grau que elas tinham de subversão ao regime e de contestação às autoridades constituídas do país.
Julião passou, então, a mostrar outras das suas músicas irreverentes e engraçadas:
“É filho de guaiamum / É filho de guaiamum / Todo mundo tem um pai / E eu não tenho um [...] É triste a pessoa não ter pai / Pra onde a gente vai só se ouve um zum zum zum”
“Só tem véia, só tem véia / No forró da Coréia [...] Eu tinha chegado em Natal [...] Saí tomando uns capilé / Quando eu dei fé, tava na Coréia / Só tem véia”
“Cadê o seu negócio, eu quero saber
Cadê o seu negócio, me mostre que eu quero ver [...]
Diga se o negócio é pequeno
Se é grande ou mais ou menos
Se é fácil de vender”
Segundo relato do próprio Elino Julião, os censores se entreolharam e um deles disse: "Está bom. Pode ir, não tem nada de subversivo não, não tem nada de esquerda não. Foi um engano. Está liberado". E foi desta forma, mostrando as suas letras debochadas e de duplo sentido, que o compositor Elino Julião da Silva livrou “O Burro” das garras da “inteligente” censura daqueles tempos.
Nascido em um sítio na zona rural de Timbaúba dos Batistas, município da região do Seridó, no Rio Grande do Norte, Elino Julião começou a trabalhar cuidando do gado e levando água, no lombo de um jumento, de um açude para a casa do dono da propriedade onde morava. Fazia suas tarefas sempre cantando as músicas que ouvia no rádio. Diziam que ele dava para ser “cantador”. Aos finais de semana, passou a ir a um clube em Caicó, cidade próxima, onde o baterista da banda conseguiu que ele cantasse algumas músicas. Cantou e agradou. Ficou indo outras vezes. Decidiu, então, se mudar para Natal.
Elino Julião, em 1972 ▪ Arquivo Nacional
E assim ocorreu. Durante seis anos, Elino Julião fez parte do grupo de Jackson do Pandeiro. Nesse período, com o Rei do Ritmo, acrescentou o que faltava às suas habilidades inatas e fez um curso completo da base rítmica, acompanhando Jackson. Depois, ele decidiu iniciar uma carreira individual como cantor e compositor, participando de discos com outros intérpretes, as chamadas coletâneas. Em uma delas, obteve dois sucessos: “Xodó de Motorista” e “Puxando Fogo”. Mas continuou a trabalhar como baterista na noite e, durante cerca de três anos, como ritmista acompanhando Luiz Gonzaga.
ESQ ⇀ DIR ▪ Messias Holanda, Elino Julião, Zé Calixto, Adélia Ramos, Pacheco, Neuza, Genival Lacerda e Jackson do Pandeiro: caravanas pelo interior do país para divulgação de coletâneas juninas.
“a canção tem poder de síntese (uma história complexa narrada em poucas linhas). Parece ter brotado espontaneamente (que letrista resiste a esta rima dada de graça pelo Acaso, 'jumento/Nascimento'?). Além do mais, a letra tem sacadas inteligentes e inusitadas sobre Nascimento, o personagem da história: 'Veja pessoal, que mau elemento / Não sei se o animal é ele ou o jumento'".
A partir daí, Elino Julião afirmou-se como um dos principais nomes da música nordestina, com forrós indispensáveis no melhor cancioneiro regional: “Rela Bucho” , “O Burro”, “Tem Amor Demais”, “A Grande Caçada”, “Na Sombra do Juazeiro”, “Finja Que Não Me Quer”, “O Forno”, “O Negócio”, “Forró da Coréia”, “Filho de Guaiamum”, “Na Minha Rede Não”, “Tamarineira” e tantas outras. No tempo em que o forró andou um pouco por baixo, Elino Julião enveredou pelas músicas ditas bregas, em que obteve, também, grandes sucessos, como “Meu Cofrinho de Amor” . Quando Julião morreu, em 2006, aos 70 anos, o escritor e compositor campinense Bráulio Tavares escreveu:
“Imagino que quando eu estiver com 80 anos, pesquisadores virão bater à minha porta: ‘O sr. ouvia Elino Julião? Viu algum show dele? Vi, sim. Vi pela última vez o grande forrozeiro num memorável show no São João de Campina, creio que em 1999. Vi à distância, tomando cerveja com ribaçã numa barraca e acompanhando pelo telão [...] Não vi de perto, amigos, porque a multidão não permitia. Era gente demais. Bons tempos, em que os principais shows do São João da Paraíba eram de forrozeiros, e não de cantores românticos paulistas de chapéus de cowboy”.
O compositor Aracílio Araújo, paraibano de Itabaiana, compôs em homenagem a Elino Julião o forró “O Cantador do Seridó”.
Onde tiver uma sanfona
Um sanfoneiro
Uma zabumba, um zabumbeiro
E um triângulo no salão
E um forró daquele bem animado
Que ninguém fica parado
Levantando um poeirão
Um rala bucho molhadinho de suor
Lembra Elino Julião
O Cantador do Seridó