Acho que era ela. A boca, o jeito dos cabelos e os olhos claros denunciavam os traços da juventude e, assim, os da menina de azul e branco que percorria aquela calçada, a cada manhã, a caminho do Lins de Vasconcelos, nos idos de 1960.
Cruzamo-nos entre as gôndolas do supermercado. Parei o carrinho de modo a facilitar-lhes a passagem e, em troca, recebi uma inclinação leve da cabeça, à guisa de agradecimento. Mais tarde, quando voltamos a nos aproximar um do outro no balcão de carnes, senti seus olhos sobre mim prontamente desviados quando ergui os meus. E ficamos nisso. Nenhuma palavra trocada e nenhum sinal mais claro de mútuo reconhecimento.
Recém-chegado a João Pessoa com uma falência paterna na bagagem, fui obrigado a trabalhar aos 15 anos a fim de ajudar no sustento da família. Saía de casa por volta das 5 da manhã e cobria por bicicleta o trajeto desde a Barão de Mamanguape, no bairro da Torre, onde morava, até a “Tribuna do Povo”, um jornalzinho de doze páginas situado na Duque de Caxias.
Meu trabalho consistia na encadernação de páginas que a impressora, uma plana, não conseguia dobrar. Encontrava as folhas abertas e ainda largando tinta sobre uma mesa comprida
Essas visões me foram, por algum tempo, o momento mais esperado dessa fase difícil da minha existência. Era quando eu esquecia a perda do patrimônio familiar (a Padaria do velho Juca) e da vida mais próspera, alegre e tranquila. Até a quebra da velha impressora atrasar a entrega dos jornais, atividade em que fui flagrado pela menina que então proporcionava, diariamente, os meus melhores momentos. Cutucou a amiga e comentou em voz alta: “Ah, ele é jornaleiro”. E nunca mais olhou para mim, exceto, talvez, neste domingo de supermercado.