As palavras têm força. Feito uma nau numa tempestade elas balançam, equilibram-se entre as vagas. Engolidas ou vomitadas, elas fazem mal; soltas aleatoriamente, sem sentido, sem efeito retornarão; ditas na dose correta, tornam-se um prato saboroso, uma iguaria que alimenta a alma e o corpo. É como o giro do disco na vitrola. A suave música embriaga, ponteia a estrada, mas não mata. A canção faz uma pausa ao término do lado, A ou B, dentro ou fora, silêncio.
Erico Luxero
Gire e toque e deixe o eco do sorriso invadir o ambiente. Gire e toque e crie a possibilidade de escutar a lágrima atingir a alma. É a chuva que faz cócegas no início da manhã e canta para a noite tal qual uma dança encantada com as frestas da janela. E o claro sol que se transforma em uma sombra de nuvens até o escuro lunar. O giro do dia, o giro do disco, o giro da vida.
A palavra dita sem voz pela madrugada muitas vezes tem mais força que as frases pronunciadas vigorosamente no meio do trânsito. Elas podem mais que a buzina mais ensurdecedora. O escutar depende não só da boca, mas também dos ouvidos. O tom é a musicalidade da língua que termina num beijo. E gira o disco, pois por mais que retorne à primeira faixa, propiciará sensações renovadas. Uma nota desenterrada da orquestra faz a diferença, como muitos pingos para formar torrencial chuva.
Charley Martin