De minha janela vejo apodrecer a juventude...
De aqui miro, em foco, o cair do corpo sem alma.
Sem o ouvir do Belo, o organismo fenece:
Há tiros, gritos, desesperança diante da morte em vão...
Em plena Arte, levantar-nos-íamos do torpor, do chão! ...
Há tempos não ouço e vejo um filme tão envolvente quanto este: Boychoir – cujo subtítulo de divulgação (Hear my song) aponta para o canto individual, íntimo, pessoal – é um apanhado de excelentes peças corais justificado por um argumento bem humano, e bem possível de acontecer.
Dirigido pelo franco-canadense François Girard e cativante roteiro de Ben Ripley, o filme possui uma campanha publicitária com cartazes, em várias línguas,
O filme estreou em setembro de 2014 no Toronto International Film Festival e conta com um elenco muito bem escalado: Dustin Lee Hoffman, no papel decisivo do Mestre Anton Carvelle; Kathleen Doyle Bates, como Justine, a diretora do internato de meninos-cantores; Debra Winger no papel da diretora da escola em Odessa (a senhora Steel); Eddie Izzard, como o preparador vocal (Drake); Kevin Michael McHale, no papel do dedicado professor de percepção e ténica vocal (Wooly); Joshua Lucas Easy Dent Maurer que interpreta Gerard Owens, o pai do protagonista; Joe West, no papel do solista Devon, destaque no coro de meninos; Dante Soriano, River Alexander, Sam Poon e Grant Venable, como meninos-cantores – a maioria desses escalados para o coro são atores e cantores, como Dante Soriano. E, protagonizando, o expressivo ator Garrett Wareing, no papel de Stetson (Stet) Tate.
Garrett Wareing (Stet) 1 ▪ Boychoir (2014) ▪ Direção: François Girard Imdb
Fernando Malvar-RuizKMEA
O filme é dedicado à memória do renomado engenheiro de som vienense Hans Peter Strobl, grande amigo de Girard, de quem foi parceiro em seu último trabalho, o filme Soie, de 2007. A trilha sonora ficou por conta do compositor irlandês Brian Byrne (com co-produção do famoso engenheiro de som chileno Humberto Gatica), da qual emerge a canção-tema The Mystery Of Your Gift, posta, como de costume, durante a exibição dos créditos finais, tendo sido concebida em parceria com o cantor norte-americano Josh Groban:
A single note passes out of the ashes
A flickering ember begins
It's the courage to turn when the pages have burned
And your story now seems at an end
Seasons stay and seasons go
Sending your memories adrift
It's the beautiful longing, embrace the unknown
That's the mystery of your gift
And the echoes of your melody will always live in these walls
And the lessons that you gave to me: “before you can fly you must fall!”
It's the beautiful longing, embrace the unknown
That's the mystery of your gift
There's a voice in the shadow calling for more
There's a rhythm that beats from within
Lending your voice to the warmth of the song
There's a strength in the choir of one
Pure as the voice that sees the place where the weight of your past may now lift
It's the beautiful longing, embrace the unknown
That's the mystery of your gift
And the echoes of your melody will always live in these walls
And the lessons that you gave to me: “before you can fly you must fall!”
So sing higher & higher, a thousand new voices ring through
If you sing out of the fire, the courage you need comes from you
It's the beautiful longing, embrace the unknown
That's the mystery of your gift...
A letra traz à canção a imagem de uma construção interpretativa, o brotar de uma idéia musical como centelha que emerge das cinzas do silêncio incriado e inicia o processo criativo que, na voz, encoraja o intérprete a “virar a página” da vida para imprimir suas lembranças, antes à deriva, em misterioso cantar. Esse ardume, esse elã é o que move o cantor e comove o ouvinte; há quem diga que cantar é escarrar a alma: e este é o segredo, o maior desafio, o dom... O título da canção-tema advém da cena em que Carvelle dá o último conselho ao seu coro
Dustin Hoffman (Carvelle)
A pré-cena é simbólica: Stet está com mochila nas costas, ao fundo, olhar fugidio, e semblante paralizado numa perspectiva cortada pelo pulso da locomotiva em primeiro plano. O tempo e o destino representados como que em direções opostas, mas, cruzadas. O trem para e, em meio a nuvens, surge o título do filme apontando para o timbre ou o dom celeste do canto infantil. Mas a primeira cena é o arquétipo do estudo e da má condução dos potenciais: na aula de música, a professora tenta ensaiar o tradicional The Battle Hymn of the Republic – que, em português, as igrejas cristãs cantam, ou cantavam, como o hino
A melodia da canção-tema é, a exemplo de tantos outros filmes, aqui, também, usada como técnica de condução do discurso emocional e realce da atuação. Byrne vale-se do piano e violoncelo (tocado por Charles Bow) para ir costurando a emotividade nas relações das personagens. Debbie, a mãe de Stet, interpretada pela atriz Erica Piccininni, é fracassada na criação de seu filho, sequer percebe nele algum talento, é alcoólatra, e representou nada além de um caso fortuito para o progenitor de Stet. Fica implícito que ela talvez fosse prostituta ou apenas uma mulher fácil, carente e sem rumo. Daí, os papéis se inverterem: Stet passa a cuidar da mãe, a exigir que ela não beba, – afinal, ele só tem a ela no mundo – e, eis o motivo de sua inquietute e delinquência. Esse simulacro de malogro materno é bem comum não só em países de língua inglesa,
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”: após essa introdução melancólica do protagonista, suas relações problemáticas na escola, e sua mãe incapaz de o orientar, Stet, pensativo, olha da janela ainda cortinada por sua vida sem propósito, ao cair da tarde. Escurece-se a tela para pontuar uma nova perspectiva discursiva e, ao raiar de um novo dia, céu arrocheado, eis a esperança na e pela Música: surge o ônibus do National Boychoir, sob a trilha de interjeições sutis em uh!, de timbre infantil em coro acompanhado por som de teclado. O rigor, a disciplina e a pontualidade coletivos são demonstrados já como característica indispensável na formação de um coral de excelência, quando da chegada do ônibus à escola em Odessa, no Texas. De igual maneira, a elegância e reverência dos trajes que se destoam do confuso despojamento da falta de farda nos alunos da escola, plateia para o notável coro.
A primeira peça do filme é a sétima parte de A Ceremony of Carols (opus 28) do compositor britânico Benjamin Britten, composta em 1942, em meio a Segunda Grande Guerra,
Debra Winger (Ms. Steel)
This little Babe so few days old,
Is come to rifle Satan’s fold;
All hell doth at his presence quake,
Though he himself for cold do shake;
For in this weak unarmèd wise
The gates of hell he will surprise.
With tears he fights and wins the field,
His naked breast stands for a shield;
His battering shot are babish cries,
His arrows looks of weeping eyes,
His martial ensigns Cold and Need,
And feeble Flesh his warrior’s steed.
His camp is pitchèd in a stall,
His bulwark but a broken wall;
The crib his trench, haystalks his stakes;
Of shepherds he his muster makes;
And thus, as sure his foe to wound,
The angels’ trumps alarum sound.
My soul, with Christ join thou in fight;
Stick to the tents that he hath pight.
Within his crib is surest ward;
This little Babe will be thy guard.
If thou wilt foil thy foes with joy;
Then flit not from this heavenly Boy!
A canção, de cunho natalino, sai num grande crescendo em direção ao encontro vocal em estentóreo final, quando se ouve o texto “menino celestial”. No original de Britten, há o acompanhamento instigante da harpa que vai, a pouco e pouco, em direção ao agudo, na representação da ascensão do combatente a satanás. Stet é apanhado pela Música somente ao fim da terceira estrofe, quando surge a palavra “som”, e as vozes se encontram. A ronda fugidia é, não só a técnica escolhida por Britten para representar o duelo de forças espirituais antagônicas de que fala o texto, mas também excelentemente escolhida por Girard nessa representação simbólica da luta entre o comportamento irrequieto e o talento latente.
Ben Ripley inspirou-se, provocado por Girard, a contar essa estória, baseando o roteiro na verdadeira escola-coral de meninos: a American Boychoir School – originalmente chamada de Columbus Boychoir – que foi criada em 1937, no estado de Ohio,
Albemarle ▪ Princeton, EUAzillow
Na audição de admissão estava presente toda a cúpula da escola; o seu progenitor, muito interessado em simplesmente desová-lo lá, queria que tudo corresse bem, e Stet escolhe, justamente, o Hino de batalha da República – ratificando aí o signo de luta interna: nesse momento é a própria voz do ator, espontânea e afinada, porém distante do padrão esperado para ingressar na concorrida instituição. Nos trechos mais difíceis do filme, e, na medida em que o protagonista vai aprimorando seu canto, empresta-se a voz do estonteante músico Benjamin P. Wenzelberg que, bem escolhido por Girard, é, hoje, a personificação real do protagonista: ele é contratenor, toca piano, rege e compõe; uma espécie de furor e verve musicais. Mas, na trama fílmica, Stet só é aceito, mesmo que a contragosto de Carvelle, porque seu genitor remunera bem pelo ano letivo inicial, dando à escola um extra: e é aí que tudo começa...
É fim de ano, um breve recesso acontece para confraternizações familiares, e fecha-se a escola. Stet, não tendo onde ficar, se esconde para não deixar que a direção descubra que seu pai não virá buscá-lo, e é nesse momento que a relação com a Música se torna exclusiva e íntima: ele passa todo o tempo estudando o repertório para o teste de ingresso no coro profissional. A peça escolhida por Carvelle é outra parte de A Ceremony of Carols: Balulalow é o quinto movimento, e o seu texto foi escrito pelos irmãos Wedderburn por volta de 1548; é uma canção de ninar para o Menino Deus, e o solo de sopranino alude à imagem da virgem ninando o seu rebento:
O my deare hert, young Jesu sweit,
Prepare thy creddil in my spreit,
And I sall rock thee to my hert,
And never mair from thee depart.
But I sall praise thee evermoir
with sangës sweit unto thy gloir;
The knees of my hert sall I bow,
And sing that richt Balulalow!
De volta às aulas regulares, chega o dia das avaliações; Stet fica nervoso, sinal de que a emoção começa a fazer parte do seu cotidiano, e, ao mesmo tempo, não consegue lidar bem ainda com os seus impulsos. Seu teste não foi como ele havia se preparado e, após a prova, ele apedreja uma vidraça, enraivecido. Mas, mal sabia ele que já o haviam aprovado quando, na quadra de basquete, ouviram-no a cantar o solo de Fauré sem que ninguém o houvesse ensinado. E é aí que vem a guinada de seus estudos: Carvelle o chama e dá uma lição como ele nunca havia ouvido; confronta-o com o seu comportamento destemperado e o provoca para obter a consciência quanto à relação íntima que deve ter com a Música. A cena é ressumada de emoção com outro trecho de Britten: That yongë child , que é a única parte desse opus inteiramente solo para voz, com acompanhamento misterioso da harpa concebido com um ostinato com as notas ré bemol e dó; e funciona como uma espécie de recitativo em meio ao clima cancioneiro dos demais números. O texto é um tanto o quanto melancólico e trata de um choro do Menino Deus, deixa para Girard levar o protagonista às lágrimas reflexivas: enquanto tenta entoar,
A primeira peça que o coro executa com a nova configuração vocal é a instigante Past Life Melodies da compositora australiana Sarah Hopkins. Sarah é uma figura provocante: é requisitada palestrante, e usa como argumento composicional, o vasculhar de timbres menos comuns ou oriundos de culturas antigas para dar um toque esotérico à sua música. É dela o instrumento ‘redemoinho harmônico’, com o qual se faz coreografias de muita expressividade, a balouçar corpo e sons instrumentais em performances bastante atraentes. Em Past Life Melodies há apenas interjeições, bocca chiusa e os misteriosos overtones. Essa técnica consiste num canto polifônico – uma harmonia vocal comum em culturas mongóis ou no Tibete –, com resultado sonoro semelhante aos harmônicos resultantes no tocar de Didgeridoo ou Yiḏaki, instrumento aborígene de formato cônico, cujos graves ecoam com forte impacto emocional e ritualístico, além de seus tocadores serem impelidos a desenvolverem a chamada respiração contínua, ou circular. Essa aura envolve o filme como se a peça houvesse sido composta para a cena de tal sorte que Stet se vê, no meio do coro, tomado pela magia do momento, entoando, e tendo consciência da harmonia da qual, agora, faz parte. O título da obra é associado à tradição que o protagonista adentra, simbolicamente, quando passa a integrar o coro principal.
Boychoir (2014) ▪ Direção: François Girard Imdb
A repercussão desse concerto resulta num convite para uma importante apresentação na célebre Riverside Cathedral, em Manhattan (NYC) com seleções de O Messias. Carvelle tem cerca de cinco semanas para aprontar os meninos e Drake o provoca a ousar compondo um contra-canto com o ré mais agudo para a voz infantil, tônica do Hallelujah – cuja forma é de um hino seguido por fuga tonal – que encerra a segunda parte desse famosíssimo oratório. Outro ponto de convergência é que, assim como na estreia feita por Händel, o convite foi para um concerto pascal. Muito embora tudo estivesse correndo bem, com o desafio lançado para o alcance pleno do ré agudo, Devon ultrapassa todos os limites e humilha a Stet publicamente, expondo o passado vergonhoso de sua mãe. É a gota d’água para que protagonista e antagonista entrem em luta corporal, e leve o conselho escolar a reunir-se pela expulsão de Stet. Carvelle, ao votar pela expulsão de seu preferido, propõe a igual punição para Devon, e ainda anuncia afastamento imediato da direção do Coro. Justine, percebendo a situação, novamente, pondera por uma decisão justa e o filme encaminha-se para o seu desfecho.
Após a estrepitosa receptividade da plateia ao fim do concerto, a Música dobra o senhor Owens de tal forma que o faz confessar à sua esposa a existência de seu filho, e, assim, hombridade e formação sólida se materializam por meio da Arte musical.
Quiçá Girard presenteie-nos com novos emocionantes filmes, cheios de Música e vida em breve! Quiçá as plateias de todo o mundo assistam a Boychoir com ouvidos atentos e se descubram os Stets perdidos, mundo afora. Quiçá descubramos o quão revolucionariamente especial é quando usamos a energia infantil para o pendor artístico; e que possamos aprender a abraçar o desconhecido para exercer o dom inexcedível, a nos suspender do torpor, do rés do chão.