Continuamos nesta semana o assunto das edições anotadas, cuja discussão foi iniciada com o texto da semana passada – “Edições anotadas (Parte I)”. Diferentemente de uma edição crítica, que se destina a levar a público um texto que se aproxime do animus auctoralis, de modo que o estudioso se sinta mais à vontade pela sua fidelidade, as edições anotadas ou comentadas devem ficar atentas não só ao que precisa de esclarecimento, mas também, na medida do possível, deve apontar, no seu comentário, algum lapso que o autor tenha cometido. Fiquemos com uma passagem de “O Homem”, em que Euclides da Cunha confunde equinócio de primavera com o equinócio de outono:
“Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo. Nem sempre desanima, ante os seus piores vaticínios. Aguarda, paciente, o equinócio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa três longos meses de expectativa ansiosa e no dia de São José, 19 de março, procura novo augúrio, o último”
— Capítulo III, p. 232 —
Arraial de Canudos, visto pela Estrada do Rosário ▪ litogravura de Demétrio Urpia ▪ 1897 ▪ Biblioteca Nacional
"equinócio de primavera ponto vernal ou o dia 21 de março, quando se registra, ao cortar o Sol – no seu movimento anual aparente, o equador celeste – uma igual duração do dia e da noite. É o início da primavera"
— nota 239, p. 232 —
Observe-se que a nota é simplesmente técnica e não desfaz a confusão de Euclides da Cunha. Ao contrário, ela a ratifica. É primavera no hemisfério norte; para nós do hemisfério sul é o início do outono. A nota, portanto, não cumpre a sua função de mão dupla saindo do texto, para dar a sua significação, e voltando ao texto, para nos trazer a sua significância.
“Metáfora usada para aludir a Troia, situada na região onde hoje é a Turquia, e que resistiu durante toda uma década contra a tomada dos gregos. Homero, de forma épica, narra na Ilíada os acontecimentos que levaram por fim a cidade a ser invadida pelos guerreiros gregos. A metáfora em Euclides é complexa, pois se por um lado enobrece a resistência de Canudos e a coragem e persistência dos jagunços, ao evocar as famosas façanhas cantadas por Homero, por outro compromete estas mesmas qualidades, através do uso do epíteto de taipa, designando as construções do arraial versus as de pedra dos antigos troianos.”
— p. 192 —
Em primeiro lugar só podemos aceitar a definição de metáfora, no texto citado, se for em um sentido genérico, para designar uma linguagem figurada. Na própria explicação da nota sobre enobrecimento e comprometimento das qualidades, vê-se que a figura utilizada por Euclides é um oxímoro, muito utilizada ao longo do texto de Os sertões, como “Hércules-Quasímodo”, a que já nos referimos no texto anterior, para designar o sertanejo (“O Homem”, Capítulo III, p. 207), ou “tumulto disciplinado”, para caracterizar o arraial fundado por Conselheiro (Capítulo V, p. 305), dentre tantos outros.
O melhor sentido para o oxímoro “Troia de taipa dos jagunços” encontra-se na segunda referência (“O Homem”, Capítulo V, p. 290), com a retomada da localização de Canudos. Em “A Terra”, Euclides da Cunha nos
A elipse de montanhas que circundava Canudos se compunha, na visão de Euclides da Cunha, da Caipã (norte), Canabrava (nordeste), Poço de Cima (mais ao nordeste), Cocorobó (leste), Calumbi (sul), Cambaio (oeste, p. 99). Esta disposição é retomada no Capítulo V de “O Homem”: Canudos é “tapera colossal”, “urbs monstruosa”, “furna escuríssima” (p. 291-292), “arx monstruosa” (p. 306), de modo a acentuar oxímoro “Troia de taipa dos jagunços”, erigida em lugar “cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito” (p. 290).
Observe-se como Euclides da Cunha estabelece o contraste. Urbs é a cidade, arx é a cidadela, ambas palavras latinas. É a arx que protege a urbs, por se encontrar sempre em local elevado. Troia é protegida pelas muralhas de sua elevada cidadela, Canudos era protegida pelo cinturão de montanhas, “tapera dentro de uma furna” (p. 297), cujos habitantes, em lugar dos heróis homéricos formam “polipeiro humano” (p. 298).
Enfim, como já afirmei em outro ensaio, aqui publicado – “Os sertões, a guerra e as guerras” –, a referência a Troia é também proléptica, por apontar para a destruição do arraial de Canudos. O que podemos constatar disso tudo é que Euclides da Cunha não faz referências gratuitas, mas sempre com conhecimento de causa. A sua erudição é inconteste e quando ela a traz para dentro de sua obra, o desafio ao leitor está lançado.