Desde algum tempo, recorrem à minha memória passagens infanto-juvenis, fazendo aflorar e reencontrar os meus Mestres e Mestras, os quais, por suas mãos, me conduziram aos umbrais do conhecimento. Foram fundamentais a convivência e o aprendizado nos bancos escolares, quase sempre sisudos e vetustos. Lembro-me, com precisão, de Irmã Cristina do Colégio das Lourdinas, que me acolheu, aos cinco anos. Ela, admirável e impenetrável sob o seu puro e alvo manto, era dona de beleza cúmplice, dotada de uma delicadeza que me seduziu.
Colégio das Lourdinas ▪ Parahyba do Norte ▪ 1940s ▪ Fonte Brasil em Imagens Antigas
Na sequência, fui transferido para o Pio X, “Atalaia Marista, Templo de Paz e Luz”. Ingressei aos 10 anos no 5º ano, sob a regência de Irmão Daniel, que nos tutelou a ultrapassar fronteira do Exame de Admissão, obtendo boas notas.
Colégio Marista Pio X ▪ Parahyba do Norte ▪ 1960s ▪ Fonte: IBGE
O maestro italiano Rino Visani passou a conduzir o Coral Orfeônico, dando um rumo musical mais profano, melodioso e rico de excertos de composições clássicas e folclóricas italianas. Villa-Lobos e suas geniais composições folclóricas, cirandas e cantigas
Rino Visani ▪ Fonte: ALPB
Tinha sempre o fervoroso prazer de me esgoelar cantando La Marseillaise do Irmão Hermann alsaciano, que poderia ter se assentado no Baixo Clero do 3º Estado. Ele nos incutia enorme admiração por Marianne e a Revolução Francesa. Falava-nos com extremada admiração sobre Marat, Danton, Robespierre, St. Just, Desmoulins. Dissertava sobre a luta entre os Montagnards e os Jacobins. Nunca mencionou "Dr. Guillotin" e sua contribuição “misericordiosa” para substituir a selvageria da degola dos condenados feitas com um machado. Após entoar a plenos pulmões a Marselhesa, o arrebatado Irmão Hermann, com quase 90 anos, brindava a sua paixão nacional com o grito “Vive la France”. E nós, numa certa irreverência adolescente, o secundávamos eufóricos. O cântico revolucionário de Rouget de Lisle nos impregnou até hoje.
Passada a fase marista, ingressei no Liceu Paraibano, inicio dos anos 60, e lá convivi com Mestres e Mestras competentes e argutos profissionais pedagógicos. Lembro bem de João Viana (Português), Iveraldo Lucena (História), Manoel Viana (Filosofia), Júlio Aurélio Coutinho, Linalda Cavalcanti de Mello (Literatura e Português).
Lyceu Paraibano ▪ Parahyba do Norte ▪ Fonte: UFPB
O passo seguinte foi o vestibular de Direito, a que fui contemplado pela proficiência do secundário. Credito aos meus mestres e mestras a conquista da minha passagem para a vida acadêmica, tendo um bom resultado no citado exame. Alegre e fagueiro, fui até o 4º ano, quando fui extirpado, em 69, pela Ditadura. Nunca mais voltei.
Levantando agora a poeira da minha vida escolar, que já se assentou desde 1955, vejo que a minha vida e a de muitos da minha geração foram lapidadas por nossos inesquecíveis e valorosos professores, os quais nos ensinaram que “não existem caminhos; estes se fazem ao andar”, conforme o sublime catalão Antônio Machado.