Meu avô materno estava morrendo, e reuniu os filhos para se despedir. Com a voz debilitada, perguntou: “Vocês sabem onde fica o rio Pó?”
Nenhum sabia onde ficava o rio Pó.
Nos anos de 1940, Cuité era um lugar mais conhecido por serra de Cuité ou lagoa de Cuité. Não tinha energia elétrica nem estrada, e as comunicações eram muito precárias. As notícias da Segunda Guerra eram anunciadas através do rádio e do Diário de Pernambuco. O jornal chegava uma ou duas vezes por semana na barbearia central.
Meu avô era agricultor e tinha uma pequena mercearia, mas quando era “dia de jornal” ele esquecia tudo, ficava na barbearia lendo e repassando os acontecimentos.
A mente cheia de histórias, gostava de contá-las. No leito da morte olhou para os filhos e disse: A guerra traz desgraças mas também fatos muito bonitos. Contei muito sobre a desgraça, deixe-me contar uma história bonita. A última...
É sobre o perdão... envolve um padre e um nazista... Este adquire muitos poderes e torna Roma um verdadeiro inferno...
“Em 1943, com a Itália parcialmente devastada e o povo doente e faminto, o rei removeu Mussolini e assinou o armistício. O que era para ser alívio, tornou-se pesadelo, porque Hitler ordenou imediata ocupação militar. E deu amplos poderes a um homem perverso, o tenente-coronel Kappler... era assim como se chamava... Sua tarefa seria conter qualquer atividade da resistência italiana, e principalmente prender e deportar judeus para os campos de concentração.
Mas havia um enviado de Deus no caminho do nazista: o padre O'Flaherty. Ele montou uma rede de assistência cujo objetivo era salvar o máximo possível de vidas. Quem recorria a ele recebia proteção. A rede mantinha esconderijos em todos os lugares em Roma, até dentro do Vaticano. Mas a Gestapo, comandada por Kappler descobriu que o chefe da rede era o padre. E mandou matá-lo. Pintaram uma linha branca na saída do Vaticano. Se O'Flaherty cruzasse a faixa seria metralhado. A sentença chegou ao conhecimento do sacerdote, que passou a usar outras vias para sair às ruas e continuar seu trabalho. A rivalidade entre os dois foi se tornando cada vez mais aferrada. O nazista era impiedoso, o padre ousado e destemido.
Quando os Aliados chegaram a Roma e Kapller foi preso, o padre não fez questionamentos e protegeu a família do carrasco, cuidando para que mulher e filhos deixassem a Itália em segurança. O nazista foi condenado à prisão perpétua por seus crimes de guerra, e enquanto viveu apenas um visitante vinha vê-lo na cadeia: o padre O'Flaherty.“
Meu avô faleceu horas depois.