
Tenha-se em mente estarmos agora numa época em que o típico visual Hippie não fosse ainda familiar para a maioria das pessoas, herdeiras conscientes do linho e do tropical ingleses, daquela indústria que usara e abusara (literalmente) do nosso Algodão Mocó. Em nada a “aparência Hippie”, de Ivo, coincidia com o look “cabeludinho jovem guarda” – uma espécie de janota caipira, começado a infestar a cena diária das cidades brasileiras, pelo recente surgimento da televisão –, e esta era uma das razões pela qual o personagem em questão atraía olhares tão logo saísse às ruas. O visual Ivo “Bitch”, tal como carinhosamente o chamavam os de sua geração, deixava alguns populares intrigados, chegando a neles despertar certa comichão em observá-lo mais de perto.
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Arrisco dizer que, ao examinarem Ivo mais de perto, corressem o risco de embaralhar o acervo pessoal, não sabendo, ao final, dizer pra si mesmos (até porque lhes faltassem palavras) se o que tinham visto
Ivo Bichara, concentrado em uma partida de xadrez ▪ Imagem: Blog Reino de Caissa
Apesar de avesso às estradas, era relativamente culto e conhecedor de línguas, já que, segundo relato de quem o conheceu de perto, gostava de cantar músicas estrangeiras em versão original e tinha especial predileção pelo inglês, tendo sido um dos primeiros alunos da Escola de Cultura Inglesa, na capital paraibana. Certamente por isto, cunhou um dia pra si mesmo um curioso epíteto, formalmente um silogismo que, por muito pouco não se torna mágica premonição, bastando para tanto que tivesse trocado o segundo T do termo por um N: “HIPPIE INTERTECTATION”.
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“O clã Joad está à procura de uma vida melhor na Califórnia. Depois que sua seca fazenda é apreendida pelo banco, a família, liderada pelo filho Tom (Henry Fonda) recém libertado condicionalmente, carrega um caminhão e vai para o Oeste. Na estrada, assolada por dificuldades, os Joad encontram dezenas de outras famílias que fazem o mesmo trajeto e têm o mesmo sonho. Uma vez na Califórnia, no entanto, os Joad logo percebem que a terra prometida não é bem o que eles esperavam.”
A reação do stablishment americano ao cinema socialmente engajado não tardaria (bem como à outras orientações esquerdistas no mundo das Artes daquele país, mas somente depois de atravessada a vau da forte recessão), culminando na irrupção do Macarthismo, que atacou com absoluta prioridade qualquer vertente do cinema que abordasse questões de natureza política. O cinema americano foi assim “enquadrado” por uma politica de “caça aos comunistas”, o que aconteceu somente depois da América conseguir a proeza de sair da recessão usando recursos heterodoxos de politica social, como financiar pequenos produtores do campo com juros subsidiados pelo Estado. Agora, porém, o drama pós-crise que os pobres viviam não deveria ser assunto de um meio poderoso de entertainment como o cinema, a esta altura cônscio de seu importante papel na INDÚSTRIA CULTURAL. Restava um pequeno problema.
James Dean em cena de Vidas Amargas (East of Eden, 1955) ▪ Direção: Elia Kazan
O remédio para o impasse não foi outro: se não havia como debelar de vez aquele inconformismo despertado nas novas gerações, o jeito era cultuá-lo, porem de uma forma adaptada aos interesses do sistema, quando, para isto foi o bastante mudar o enfoque. Uma vez domado, ficou fácil para um veiculo de massas como o cinema criar novos parâmetros para a sempiterna revolta juvenil: Para o mundo inteiro, ou para o que fosse possível de alcançar pelo cinema num mundo então dividido pela guerra fria, descia agora das telonas o movimento Beatnik. Aquele!
Tal qual a anterior vertente social do cinema americano, esta nova tendência também teria seu batismo em um Jordão literário (a indústria gráfica e seus dois grandes produtos, o Jornal e o Livro, estavam perdendo terreno para o cinema dentro da indústria cultural, e mais pronunciadamente o livro, uma fonte de conteúdos que não podia ser ainda alijada completamente dos processos midiáticos de condução das massas):
Jack Kerouac On The Road
O que se tinha agora era um tipo de revolta meramente existencial contra o sistema. Que não incomodava, por não dispor de nome, muito menos de lugar, já que os protagonistas viviam montados em motocicletas que engoliam estradas com único objetivo de sentir o vento nas orelhas. Vieram então os filmes do tipo Easy Rider (classificado em um novo gênero, o road movie, com Peter Fonda e Jack Nicholson) onde a todo instante o pobre espectador mentalizaria a palavra Liberdade, soprada ininterrupta pelo vento das estradas (rugido de motocicleta e musica de Rock’n’roll completavam a trilha sonora de diálogos quase inexistentes). Coincidentemente, uma palavra-chave da narrativa americana na guerra de propaganda contra a URSS, e por isso deliberadamente acatada pelos estrategistas americanos na Guerra-Fria 2.0, pós 2ª Grande Guerra.
Mas, ao que parecia, a saga da Famiglia Corleone tinha chegado na Rua Visconde de Pelotas, centro da capital paraibana, mirando em dois alvos principais, que fossem estes:
1
insuflar a imaginação dos frequentadores assíduos dos 2 cinemas (Municipal e Plaza) mais frequentados do centro; 2
valorizar ao máximo a notícia brotada da mente fertilíssima de Kardec – capaz, entre outras coisas, e segundo o folclore local, de ser aquele mágico vendedor que tinha achado compradores para o impossível: as encostas verticais das Pontas de Cabo Branco e Seixas.Por outro lado, da prodigiosa mentalidade vigente à época, não tardaria a surgir uma nova, porém complementar notícia sobre o Hotel Tambaú, que, pelo tanto de peculiaridades inerentes ao projeto, muitos acreditavam ter sido concebido pelo sonho ambicioso de um marco do turismo internacional. Planejado para essa nova latitude tropical, o Nordeste brasileiro, o recente complemento informativo vinha acrescentar para essa estrutura hoteleira, acreditem, nada mais nada menos que um... Cassino!
Hotel Tambaú ▪ 1970s ▪ Suplan
Hotel Tambaú, à época de sua construção ▪ Imagem: Suplan
A obra trazia a assinatura do arquiteto carioca Sérgio Bernardes (o mesmo que, anos depois assinaria o projeto do Espaço Cultural José Lins do Rego, tido durante três décadas como o maior do mundo em sua especificidade, superando o Georges Pompidou, de Paris, e sendo destronado apenas recentemente pelo colossal Centro Nacional de Artes Kaohsiung, em Taiwan), e embora a essa altura não se soubesse de certeza quem estava por trás da construção do Hotel, as suspeitas recaiam sobre o nome do governador que, na década passada, dera início à obra: João Agripino, um homem de gênio difícil mesmo para os círculos militares que, com mão-de-ferro controlavam o país. Na verdade, esse projeto arquitetônico chegava rompendo com todos os parâmetros para régulo de construtos na beira-mar. Eis aqui uma ligeira súmula de seus pecados:
▪ violava o distanciamento de 50 metros pós areia da praia;
▪ invadia o espaço litorâneo concebido exclusivamente para fluxo e refluxo das marés;
▪ aboletara-se em terreno sob jurisdição exclusiva da Marinha.
▪ invadia o espaço litorâneo concebido exclusivamente para fluxo e refluxo das marés;
▪ aboletara-se em terreno sob jurisdição exclusiva da Marinha.
Teorias conspiratórias? Estas não paravam. Concebido em moldes internacionais, a instalação do aventado cassino visava suprir a perda que as máfias do jogo sediadas em Las Vegas (EUA) haviam amargado desde a Revolução Cubana, que acarretou o fechamento de suas casas de jogos em Havana, até então um paraíso da jogatina que chegara a rivalizar com Monte Carlo e seus 3 grandes cassinos cercados de hotéis de Luxo. Por sua vez, o novo cassino brasileiro (e paraibano!), pra arrebentar de vez com a boca do balão, viria já instalado em um hotel de luxo.