Meu amigo Chico Viana escreveu, semana passada, sobre as máscaras da pandemia, essas que temos usado nos últimos dois anos, de todas as cores, formatos e preços. Escreveu, como sempre, com toda a graça de escritor consumado que é, e com a propriedade de intelectual atuante, que é também. Li seu texto, gostei e fiquei pensando sobre outras máscaras que não as da pandemia, aquelas que usamos, todos nós, a vida inteira, nas relações interpessoais cotidianas, e que quase sempre não são vistas pelos outros (muitas vezes nem por nós próprios) mas por todos pressentidas, intuídas, sabidas. É dessas que quero tratar agora, esperando que Chico delas se ocupe mais à frente, melhor que eu, naturalmente.
Denise Wauters
De manhã, ao acordarmos, colocamos a primeira máscara, seja ela qual for, de acordo com nosso humor; depois, no trabalho, a trocamos por outra (ou outras), de acordo com os interesses e necessidades; finalmente, à noite, nos compromissos sociais, substituímos as anteriores, de acordo com as conveniências. É assim todos os dias, inclusive nos fins de semana e feriados, já que somos atores e atrizes em tempo integral.
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E os políticos? Esses, cada vez mais, são os senhores das máscaras inumeráveis. Usam uma a cada minuto, sem a menor cerimônia, acostumados que estão a dizer não o que pensam e sim o que o público quer ouvir. Sobre cada assunto ou circunstância, uma máscara apropriada, todas com o perfil de bom moço, probo, servo do bem comum. Daria gosto de ouvi-los, não soubéssemos o quanto mentem.
Recentemente, revi o filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Quantas máscaras. A personagem principal, um exitoso e jovem médico nova-yorkino, introduz-se clandestinamente numa mansão dos arredores da cidade, onde realiza-se uma imensa e luxuosa orgia.
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No carnaval também usamos máscaras para o mesmo fim. Ou seja, para podermos assumir plenamente nossa própria identidade, nosso “eu”, ocultando-nos. Usamos uma máscara para tirarmos outra. Ou seja, não ser para ser. Na pandemia, a situação é inversa. A máscara sanitária não nos exige a retirada da máscara invisível que carregamos todas as horas. É uma sobreposição de máscaras, sem nenhum problema para ninguém. A máscara invisível, como uma segunda pele, faz parte do nosso corpo; a máscara pandêmica, quem sabe, se continuarmos a usá-la indefinidamente, talvez assuma, aos poucos, a natureza translúcida da outra. Há muito tempo, conheci uma mulher cuja máscara invisível logo identifiquei. Ela gostava e provavelmente ainda gosta de posar de defensora dos oprimidos.
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Outro caso que me vem à lembrança é o de um indivíduo de voz mansa, que fala constantemente em Deus, aparentando ser muito reto e muito simples. Parece um santinho. Mas na verdade é o contrário disso: não é reto e adora as pompas e grandezas deste mundo. Não sei se consegue enganar os outros; a mim, há muito que não engana mais. Nem a Deus, claro. As máscaras invisíveis têm esse problema: não raro, de tão óbvias, facilmente se mostram.
Estranho bicho é o homem, que precisa de máscaras para viver e sobreviver. Dos outros animais, que me lembre, apenas o urso panda usa máscara. Mas não sabe disso. Ele é o que é, simplesmente, em todos os momentos. Imagino que deva ser mais feliz que os sapiens.