O termômetro do ônibus marcava 44°, quando eu e um amigo professor de grego chegamos a Micenas. Havíamos saído às 08:00 horas de Atenas, com uma temperatura amena, para uma manhã de final de julho, numa viagem que deveria durar três dias, visitando alguns sítios arqueológicos importantes da Grécia: Epidauro, Micenas, Olímpia, Delfos.
A primeira parada foi em Corinto. Desde os tempos imemoriais que os gregos chamavam o Peloponeso com este nome. Separado do continente por uma pequena faixa de terra, a “ilha gigante”, esta sua etimologia, situada ao sul da Grécia, só se tornou, realmente ilha,
Canal de CorintoErnmuhl
Na descida para Epidauro, a estrada estreita e sinuosa apresenta algumas surpresas. Uma delas é verificar que as cruzes de beira de estrada e os pequenos túmulos enfeitados com flores, nossos conhecidos das estradas brasileiras, ali também apareciam com frequência. Outra surpresa é observar como o ambiente físico é familiar, principalmente a mim, nordestino. Além disso, o tempo parecia ter parado, não fosse a presença do asfalto a nos lembrar em que século estávamos.
Epidauro foi o primeiro êxtase. Ali, bem à nossa frente, estava o mais bem conservado anfiteatro da Grécia. Construído nas proximidades do templo de Esculápio, o anfiteatro é uma maravilha da engenharia helênica, em termos de sustentação e de acústica. Alto e amplo, o anfiteatro, como define a sua etimologia, permite a visão de todos os lugares; o planejamento acústico não deixa escapar nada do que diz o coro na orquestra ou da fala dos personagens no proscênio (que nós chamamos de palco ou cena), não importa o lugar em que o espectador se encontre. Divisa-se também com perfeição o párados-êxodos, por onde entrava e saía o coro, marcando o início e o fim do espetáculo trágico. Embora estivéssemos apenas para uma visita rápida de reconhecimento de um anfiteatro bem conservado, bem mais do que o Dionísio ao pé da Acrópole, a sensação era de que havíamos voltado no tempo, na iminência de assistir a uma das célebres tragédias.
Anfiteatro de Epidauro ▪ GréciaMichael Kogan
Michael Kogan
Era impossível não se emocionar, diante do encontro real com o que conhecíamos apenas pelos livros. Uma senhora e o seu casal de filhos, que faziam a mesma viagem que nós, perguntaram-me se aquelas ruínas eram importantes. Vendo o mundo de cima, em plena sala do palácio, respondi-lhe, simplesmente, que estávamos no topo do mundo! Não sei se ela entendeu, que eu queria dizer que estávamos num dos pontos mais famosos de uma das mais importantes civilizações que o mundo conheceu – a civilização micênica, cujo apogeu foi do século XVI ao XII a. C. –, mas, ao que parece, eles ficaram satisfeitos com a minha resposta.
Descemos para a tumba de Atreu. O sol, com sua luminosidade explosiva, não dava qualquer desconto. Ao menos, poderíamos ficar um pouco na sombra. O poderoso Atreu, gerador dos Atridas, sendo os mais importantes e significativos os dois irmãos que lutaram em Troia: Agamêmnon, o Senhor dos Heróis (Ἀναξ ἀνδρῶν), comandando um exército de coalizão de cem mil homens, e Menelau, o pastor das tropas (ποιμῆν λαῶν), que parte para Troia, em busca de uma satisfação por causa do rapto da sua mulher Helena.
1 ▪ entrada da Tumba de Atreu; 2 ▪ máscara mostuária de Agamêmnon; 3 ▪ lira de marfim; 4 ▪ copa de Nestor. Milton Marques Jr
De nada adiantava pensar que a realidade histórica era outra, diversa do mito homérico. O mito falava mais forte e calava qualquer explicação que se pudesse dar, com base na sensaboria da história. Homero se levantava maior e eterno. Os tesouros desenterrados e presentes no Museu Arqueológico Nacional de Atenas eram as evidências que o mito nos prometera. Ali, a famosa copa de Nestor e a máscara mortuária de Agamêmnon faziam a harmonia do conjunto com uma lira em marfim, que bem poderia ser a lira de Homero. Digam o que quiserem,
A entrada da Cisterna de Micenas ▪ Peloponeso ▪ Grécia Milton Marques Jr
A nota mais curiosa e de grande importância aconteceu depois da saída da Tumba de Atreu. Encaminhei-me à cisterna de Micenas, visita sem concorrência. À medida que eu descia os batentes, a temperatura caía. E a queda foi drástica. Quando cheguei ao final, o calor externo já não existia. O que sentia era frio diante da imensidão da água gelada que ali se encontrava. Há 36 séculos, os micênicos já sabiam que as cisternas deveriam ser feitas no subsolo, para que água não evaporasse e pudesse manter a temperatura necessária a combater o grande calor, quando chegasse à superfície.
No Brasil, quem andar pelos sertões, vai encontrar cisternas com boa parte de sua estrutura externas feitas de alvenaria ou de fibra de vidro, que não conseguem manter a água que captam, por causa da evaporação. A Grécia sempre ensinando, ainda que muitos queiram reinventar a roda. Olímpia de Zeus e Delfos de Apolo, onde o mítico se encontra com o místico, merecem um texto à parte.