Quando somos crianças, as horas são preguiçosas. O tempo é imperceptível. Armamos nossos presentes com arcos e pedaços de invisíveis fazeres. Não temos a constante preocupação que embaraça os adultos, os maduros, que se vergam à cronometragem de afazeres. Nossos espaços são longos. Em quaisquer classes sociais, a infância é um brinquedo; a vida parece não correr e o sono noturno traz a tranquilidade deitada em sonhos.
Há ricos, abastados, medianos e pobres. No contexto atual, a predominância dos meios virtuais, atraem a telas o que antes era sensível ao tato. Por exemplo, o toque de bola, o trocar de roupa de bonecas, o puxar carrinhos com cordões, jogar amarelinha, academia, anel, dominó, víspora. Hoje, os jogos cibernéticos desmontam os brinquedos táteis.
Vive-se uma meninice enclausurada. A criançada de agora é refém de um sistema de apetrechos de medo que a isola no cubículo de defesas. Os que se encurralam em comunidades sofrem o isolamento: há perigo de balas insípidas e ofensivas. Passeiam seus desencantos por estreitas ruelas, se arriscando, descalças, a doenças as mais diversas, e, se soltam pipas, não é de brincadeira, porém sinalizações, códigos para embates. Os pequenos de lugares mais imprevisíveis, habitantes de moradias erguidas em tijolos transversos, têm a mesma coloração interior da infância daquelas que são mais abastadas.
É o que salva. Mesmo que o lobo rosne em ameaça, a alma infantil borbulha, de uma forma ou de outra; uns ocupados nas possibilidades do computador e outras criando meios de superar a condição restrita, descobrindo o tesouro guardado na caixa dos corações.