Em 1934, na voz do cantor Francisco Alves, saía o disco com a gravação de “Não tem tradução”, um dos melhores sambas do gênio de Noel Rosa. Letra e música do Poeta da Vila Isabel, conforme o registro de João Máximo e Carlos Didier, os mais rigorosos biógrafos de Noel. Embora tivesse, na ocasião, apenas 23 anos, Noel Rosa já se tornara um atento e aguçado cronista dos fatos do cotidiano da sua época. “Não tem tradução” é um primoroso exemplo do olhar de Noel sobre o seu tempo.
O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente que um barracão prende mais que um xadrez
Lá no morro, se eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não se lembra que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são 'I love you'
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone
Embora os ritmos estrangeiros, como o fox-trot citado em “Não tem tradução”, já estivessem sendo comumente adotados nos bailes do País e as expressões inglesas fossem de uso corrente no futebol (penalty, corner, off-side, foul, team, goalkeeper, entre outras), Noel Rosa relatava na letra do seu antológico samba as modificações que estavam se dando na língua coloquial da população por influência do “cinema falado” que, cinco anos antes, havia chegado ao Brasil.
Os atores Eugenie Besserer e Al Jolson em O Cantor de Jazz (1927), primeiro filme comercial sonoro da história do Cinema (direção: Alan Crosland) Imdb
Na primeira década do século 20, os equipamentos de projeção já haviam se aperfeiçoado e as pessoas não eram mais atraídas pela curiosidade do invento inovador. Agora, eram os enredos dos “filmes” que levavam os espectadores, já cativos do cinema, às salas de projeção que haviam se instalado ao longo da recém-inaugurada Avenida Central (futura Rio Branco), marco da reforma urbanística na área central da então capital do País e que fora executada pelo Prefeito Pereira Passos por determinação do Presidente Rodrigues Alves. No início dos anos 1920, apenas o espaço conhecido como Cinelândia, localizado em uma das extremidades da Avenida Rio Branco, concentrava seis cinemas.
A praça Marechal Floriano, na década de 1920, com a Cinelândia e, na extremidade (ESQ), o Palácio Monroe, demolido em 1976 (clique aqui para ler mais sobre essa triste história)
Resenha da revista Era Nova, de 31.12.1923, editada na Parahyba do Norte, com a programação dos cinemas da cidade, da empresa Einar Svendsen ▪ Fonte: UFPB
Nas salas de espera dos cinemas também havia música. No Rio de Janeiro, grandes músicos atraiam para o local os seus admiradores, muitos dos quais nem assistiam aos filmes, como era o caso do senador Ruy Barbosa que frequentava o Cine Odeon para ouvir Ernesto Nazareth se apresentar ao piano. A flauta de um quase menino Pixinguinha e o violoncelo de Villa-Lobos também participaram de grupos que tocavam em salas de espera dos cinemas.
Década de 1920: sala de espera do Cine Odéon, no Rio de Janeiro, onde ocorriam apresentações musicais nos intervalos das sessões ▪ Fonte: Arquivo Nacional
Cartazes e trailer do filme Broadway-Melody (1929) ▪ Direção: Harry Beaumont
No filme "Alô, Alô, Carnaval, os cantores Joel e Gaúcho interpretam a música "Pierrô Apaixonado", composição de Noel Rosa, em parceria com Heitor dos Prazeres.
“A natureza do Cinema é a imagem. Ora, a imagem é fundamentalmente silenciosa como meio de expressão [...] Eis por que o Cinema, arte da imagem, deve ser silencioso”.
“[...] transformação por que passou o Cinema, que a meu ver tirou à imagem o melhor do seu sentido: o silêncio, o ritmo interior, o valor da expressão muda, a realidade íntima do símbolo, a modéstia dos letreiros, para substituí-los pela falação, pelo desperdício da voz humana inútil".
[...] O cinema falado é artisticamente uma impostura. Não cabe. Só o aceitamos quando, pela qualidade de sua imagem, ele é intimamente mudo”.
“[...] transformação por que passou o Cinema, que a meu ver tirou à imagem o melhor do seu sentido: o silêncio, o ritmo interior, o valor da expressão muda, a realidade íntima do símbolo, a modéstia dos letreiros, para substituí-los pela falação, pelo desperdício da voz humana inútil".
[...] O cinema falado é artisticamente uma impostura. Não cabe. Só o aceitamos quando, pela qualidade de sua imagem, ele é intimamente mudo”.
No decorrer dos anos, a utilização do som, nas suas diversas formas, incorporou-se de tal maneira ao cinema que até os antigos filmes silenciosos são, atualmente, exibidos com trilhas sonoras, como se elas reproduzissem a atuação dos pianistas e grupos musicais que, no tempo do cinema mudo, tocavam nas salas de exibição.