Madame Natasha é uma personagem criada pelo jornalista Elio Gaspari em sua coluna publicada na Folha de São Paulo e em vários outros jornais. Ela é uma Professora de Português, vigilante na aplicação do idioma e que concede bolsas de estudo para aqueles que se expressam de forma empolada e afetada para tentar dar a entender que são possuidores de conhecimentos inacessíveis aos pobres mortais.
São os destinatários do Curso da Madame Natasha aqueles ditos especialistas em matérias nas quais se pronunciam, sempre em circunlóquios e alongados parágrafos, com termos intrincados,
Um dia desses, comprei um livro escrito por um daqueles luminares da USP. O primeiro parágrafo tornava-se intransponível. Eu lia, relia, e nada. Fiquei emperrado. Parecia que o autor queria concentrar naquelas palavras introdutórias todo o saber que acumulara desde os tempos da sua alfabetização. De nada me valeram aqueles rudimentos da língua de Camões que recebi, em Campina Grande, do velho professor e gramático Anésio Leão, de Celso Pereira e de Moacir Carneiro.
A propósito desses tipos que teimam em escrever e falar difícil, me lembrei de um episódio que, dizem, teria ocorrido com o ex-governador da Paraíba Ernani Sátiro. Ao fazer uma explanação qualquer em uma reunião, um secretário do seu governo mencionou o termo “precipitação pluviométrica”. Ernani se mexeu na cadeira. O auxiliar continuou sua exposição e, de novo, saiu a tal da “precipitação pluviométrica”. Ernani Sátiro, com a “paciência” que o caracterizava, interrompeu a fala do secretário e perguntou:
— Amigo velho, o que é que você tem contra a palavra chuva?
“[...] dos funcionários que encontrei restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma.”
“[...] não sei se a administração do Município é boa ou ruim, talvez pudesse ser pior.”
“[...] no cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação.”
“Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.”
“Em Janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite.”
“Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.”
“Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porem, foram erros da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.”
O relatório causou tamanho rebuliço que foi bater nos jornais do Rio de Janeiro. Lá, um atento editor, ao tomar conhecimento do documento, imaginou: “Esse Prefeito só pode ter um romance na gaveta”. E ele tinha. Aquele Prefeito do município de Palmeira dos Índios, em Alagoas, chamava-se Graciliano Ramos de Oliveira. Para muitos, entre os quais eu pretensiosamente me incluo, é o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
“Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada […] Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal [...] A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.”
Para quem se interessar em ler, o relatório do Prefeito Graciliano Ramos está disponível neste sítio.