Perto de completar 73 anos, experimento brusca mudança na vida. Passei a encarar o mundo de forma bem diferente. Tornei-me uma pessoa exageradamente cética, um tanto quanto passiva - mas, em compensação, bem mais sossegada, tranquila, na verdade aliviada, depois de mais de 50 anos de trabalho duro.
Considero a Política uma atividade que beira a delinquência - e a tal luta pela afirmação da cidadania “água que não molha, fogo que não queima”. Ninguém quer mexer nas estruturas, na chamada ordem política, social e econômica, isto é, no real e profundo da questão. Não que eu seja um revolucionário. Nunca fui. É que não tenho mais tempo a perder com atividades que quase sempre resultam no giro de Pirandello, aquele longo giro que retorna sempre ao ponto de partida.
Petrônio Souto
No meu precário “universo paralelo”, bem ao estilo franciscano, restam os poucos livros que escaparam dos empréstimos sem devolução, além dos discos, filmes, minhas filhas, minhas duas ex-mulheres (casais com filhos nunca se separam) e meia dúzia de velhos e bons amigos.
A Internet é a minha “cidade transcultural” (é assim que a rede mundial de computadores está sendo vista por alguns teóricos). A grande vantagem é que não tenho chefe, patrão, horário de trabalho, nem sou obrigado a fazer coisas por conveniência ou para agradar a alguém. Tudo funciona de acordo com os meus desejos, as minhas vontades. O valor mais alto para mim passou a ser a vida, a própria existência. Viver, simplesmente viver, é o que eu faço hoje com muita alegria.
Ainda ando interessado em desvendar mistérios da Natureza e da Humanidade - mas não tenho mais ânimo para emitir opinião sobre nada, para interferir em coisa alguma. “Eu quero o silêncio das línguas cansadas”, como diz o verso da canção “Casa no Campo”, de Zé Rodrix e Tavito. Minhas “polêmicas” são íntimas, secretas, de mim para mim. Hoje acompanho mais o crescimento dos meus netos do que o desempenho dos governantes.
Felizmente as mudanças têm servido para aprimorar meu modo de vida e para me dar uma visão mais amena do mundo moderno. Não deixa de ser uma atitude personalista, reconheço, mas começo a admitir que essa é a minha natureza. Nunca tive vocação para ser “fermento na massa”, “sal da terra”, herói, ídolo, muito menos líder ou mesmo guru de alguém. Estou mais para monge, asceta. Adoro o recolhimento, a vida simples.
Houve um tempo em que, por dever de ofício, fui obrigado a comentar (e a me posicionar publicamente) a respeito dos mais variados assuntos. Da falta de água nas torneiras à falta de vergonha das autoridades. Era uma figura polêmica, com alguma notoriedade na província, consequência da minha diária hiperexposição pública.
Sharada Prasad
Agora, tendo perdido a sensação de jornalista, como diria o amigo Carlos Aranha, uso mais os ouvidos e os olhos do que a boca ou os dedos sobre o teclado do computador. Com paciência, procuro ser um “autônomo”, uma pessoa que busca estabelecer regras próprias para viver. A vitalidade que me resta procuro transformar em energia interior.
Hoje sou um homem dos meus vagares. Curto o Sol e a chuva (adoro dormir em dias chuvosos), o movimento dos ventos, as fases da Lua, as estações do ano, a folia dos pássaros que visitam minha varanda, que recebeu belas plantas doadas pelas filhas.
Deito-me na rede para contemplar o horizonte e o firmamento. Volta e meia, em dias de maré baixa, faço uma caminhada em algum trecho deserto da praia para ouvir meus passos sobre a areia ou vou conviver por alguns dias com o homem simples do campo.
Nunca fui um Taleban da esquerda, nem nunca estive na TFP da direita - mas as ideias conservadoras jamais me entusiasmaram. Na Política como na vida procurei adotar a máxima: “A virtude está no meio”. Acho que sou apenas um “pequeno-burguês retirado”, como diria sobre si mesmo o grande Eça de Queirós, poucos meses antes de morrer.
Oğuzhan Akdoğan
Tenho plena consciência de que não sou exemplo para nenhuma pessoa, muito menos para minhas filhas, todas já passadas dos 30 anos, com vida própria e autonomia financeira. É que o princípio da vida é o movimento - e eu ando meio em "slow motion", cadência própria daqueles que resolveram “amarrar o burro na sombra”, depois de uma longa e cansativa jornada.
Os conceitos emitidos nestas mal traçadas linhas não podem servir de orientação para ninguém. São impressões e reações personalíssimas, fruto da minha índole e experiência de vida, experiência exclusiva, somente minha.
Uma pergunta poderia ser feita: Estaria eu vivendo uma segunda adolescência, bancada pelos proventos da aposentadoria, depois de cumpridos os compromissos da fase adulta? Talvez. O fato é que na adolescência eu estava trabalhando. E trabalhando feito burro de carga, por ser exímio datilógrafo.
O que deixo para minhas filhas são coisas da minha própria conduta, pequenos traços da minha personalidade, com os quais elas conviveram, e, assim, poderão avaliar melhor o pai, no futuro.
Petrônio Souto
Não posso deixar de pedir desculpas às duas ex-mulheres, criaturas extraordinárias que estiveram ao meu lado em fases distintas, mas igualmente turbulentas da minha vida, o que talvez tenha prejudicado nossa convivência. O que posso dizer mais? Posso dizer que valeu. E como valeu!
Para finalizar, duas coisas: Um hai-kai da jornalista Lúcia Helena Corrêa que resume tudo o que sinto neste momento: “Aos 70 só desejo Paz! Tudo em mim é para sempre. Nada é nunca mais.” E um trechinho da canção “Tocando em Frente”, de Renato Teixeira e Almir Sater, que aprecio bastante: “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”.