Quando nos aproximamos do sítio, pequena aglomeração rural, inesperadamente um menino saiu apressado de uma casa de taipa, pequena, telha-vã e piso de chão batido. Parou perto de nós, descalço, tinha olhos de sol arregalados e fixos nos estranhos que chegavam. Se corpo tisnado, igual ao de outras crianças que chegavam com algazarra natural à idade.
Não falarei dos motivos que nos levaram àquela comunidade rural nos cafundós de Serraria, localizada na beira de imponente canavial onde as famílias produziram aqueles meninos. Me apegarei ao jeito com que as crianças conversavam conosco, alheias à degradação do seu espaço onde habitavam.
Debaixo da jaqueira pus-me a olhar e refletia sobre o que a vista alcançava. Apalpava um fruto dependurado, enquanto contava as crianças em derredor, quase uma dúzia, quando me vieram à mente cenas de décadas quando semelhantes criaturas raquíticas conviviam nas redondezas do sítio onde nasci, época de desolação e, para enganar a fome, rasgávamos toros de cana ao dente, sem tirar os olhos do horizonte por onde o feitor do engenho poderia aparecer.
Perdoe-me a sensação de impotência diante das cenas protagonizadas pelo grupo de meninos sambudos meus conterrâneos, semelhantes aos de diferentes épocas, sempre empurrados pela ganância dos donos da terra e do poder, e pelas mesmas moendas esmagados, convivendo no meio de latrinas, moscas, baratas, ratos e goteiras que perfuram buracos no chão da casa de terra batida. Gente em rasa condição humana, esquecida e maltratada, lembrada somente durante a cata de voto por ocasião de eleições.
Ficamos admirados como essa gente fica contente com tão pouco, com as migalhas que são jogadas aos cachorrinhos.
Arrebatados pelas usinas, os frutos da terra não chegam até àquelas famílias que, comprimidas num sovaco de uma gruta, nem percebem o horizonte distante dos seus filhos.
O sorriso do menino Jesus nos anima, porque é o mesmo sorriso do menino Jesus de dois mil anos atrás. Sorriso de esperança, mesmo que seu horizonte esteja muito além das moendas que trituram cana.
Esperançoso como meu pai que, vendo as plantações sendo queimadas pelo sol inclemente, olhava sobre as serras cortadas pelo Sol do amanhecer, pensando encontrar as nuvens da tranquilidade. Logo os sítios ficavam verdejantes, e então jogava na terra as sementes da bonança.
Não cheguei ao lugar com a mão estendida, pouco alimentei aquelas famílias, nem conduzia a cabaça com água, mas deixei minha porção de esperança e um pouco do sorriso. A certeza de que quanto mais escura seja a noite, sempre há um alvorecer com luzes, assim nos ensinam os poetas místicos.