Quanta coisa boba pode gerar um texto! A lembrança de meu gato de infância. É raro quem, durante os rápidos verdes anos, não tenha possuído um talismã vivo: gato, cachorro, papagaio.
Meu gato ou o bichano da casa era negrinho, retinto como se pintado de piche. Os olhos amarelos, flutuantes, invasivos. Um miado estranho. Certamente era poliglota, pois a tonalidade variava, e, não sei se por fantasia infantil ou besteira de criança, conversava comigo.
Meu gato ou o bichano da casa era negrinho, retinto como se pintado de piche. Os olhos amarelos, flutuantes, invasivos. Um miado estranho. Certamente era poliglota, pois a tonalidade variava, e, não sei se por fantasia infantil ou besteira de criança, conversava comigo.
Quando eu chegava suado da escola, sacudia a farda ao avesso sobre a cama, vestia o short e corria para Pretinho.
Quando estava estudando para as provas, meu companheiro era Pretinho que, vez por outra, arranhava as páginas do livro ou se deitava sobre os cadernos abertos. Fazia piruetas insatisfeito porque eu trocava a brincadeira de bola com ele pelo estudo. Nunca se conformava ou entendia.
O mais interessante, quando, por algum motivo, eu chorava, Pretinho vinha se achegando, ficava a olhar-me com uma cara expressiva de compaixão. Enquanto durasse o pranto, o gato não saía de perto, parecendo uma estátua, firme, a olhar-me. Se chorasse, verteria lágrimas por seus olhos redondos e amarelos.
Pretinho foi meu aliado.