O Pássaro Secreto, um livro muito forte, profundo, verdadeiro, que impressiona pela narrativa densa, bem sequenciada e sem arrodeios. Uma leitura impossível de ser interrompida, mesmo entre um capítulo e outro, ou por alguns segundos, pelo mistério e suspense que o envolvem, tão bem ornamentado.
A atmosfera criada por Aglaia, protagonista capaz de amar e odiar, com a mesma intensidade que experimenta ciúmes e desprezo, possibilita-a mergulhar no seu mundo próprio, mas com boas leituras dos clássicos, do teatro, da literatura, da música, em um universo doméstico composto de constante aprendizado. Assim ela aprende a se impor como uma pessoa diferente, com forte personalidade, pois o conhecimento adquirido não a permite usar a máscara da falsidade para se relacionar com o mundo exterior.
Aglaia tem uma vida interior intensa, uma percepção tão aguçada das coisas que, como é próprio da natureza humana, é cheia de paradoxos, nos quais nos espelharmos constantemente, em tudo o que ela sente, em tudo que ela vê. A capacidade que a personagem tem de enxergar as pessoas por dentro e por fora instiga-nos a olhar e redescobrir os mesmos sentimentos dentro de nós. Mesmo quando seu mundo desmorona perante o surgimento de uma irmã, que ela desconhecia, fruto de um relacionamento extraconjugal de seu pai, e que ela sente como se tivessem lhe puxado o seu tapete, nos enxergamos dentro do drama.
São situações que ao serem lidas, fazem-nos vivenciá-las, em paralelo, como tantas vezes em que numa vida toda programada, feita de sonhos, de repente é invadida e nos sentimos estranhos em nosso próprio mundo. Isso foi o que a fez mudar a maneira de agir, com toda razão.
Marília está de parabéns por mais esse livro, por seu imaginário de riqueza sem limites, que abrange uma imensa gama de sentimentos que ela consegue descrever tão bem com as palavras. O romance poderia ter mil páginas e não cansaria o leitor, pelo poder de provocar reflexões profundas e insaciáveis.
Confesso que a leitura desta obra não se constituiu para mim uma surpresa, por saber da bagagem cultural e intelectual da autora, já comprovada em outros personagens e belos contos que já criou.
Com estas modestas considerações, pessoais e distantes das merecidas críticas que O Pássaro Secreto já fez jus, resta-me erguer os parabéns a Marília. Estou encantada.