Costumam visitar meu quintal nos finais dessas tardes estivais. Estimo a chegada desses passarinhos, talvez pelo som que emitem, pois me parecem propostas de benquerença: Bem-te-vi! Não é bonito ouvir isso dessas avezinhas canoras?
Debaixo daquela copa exuberante do jambeiro-rosa que fica ao fundo de meu quintal, costumamos, eu mulher e filha, gastar alguns dedos de prosa nos finais de tarde. Coisas sem importância, banais, outras vezes até arriscamos em searas mais complexas, conversas que exigem um pouco mais de nossos neurônios. mas tudo é apenas um pretexto para estarmos juntos. Para mim há um toque de magia nesses momentos.
Debaixo daquela copa exuberante do jambeiro-rosa que fica ao fundo de meu quintal, costumamos, eu mulher e filha, gastar alguns dedos de prosa nos finais de tarde. Coisas sem importância, banais, outras vezes até arriscamos em searas mais complexas, conversas que exigem um pouco mais de nossos neurônios. mas tudo é apenas um pretexto para estarmos juntos. Para mim há um toque de magia nesses momentos.
Então, hoje resolvi conversar com meus bem-te-vis. Espero que continuem aparecendo por aqui. Vê-los, há de dar-me a convicção de que o mundo vai girando e nesse giro a vida segue seu percurso natural. O que quero dizer com isso? Simples meus caros e valentes amigos (estou conversando com os bem-te-vis). Assim como seus filhotes, quando ganham penas e musculatura, batem suas asinhas e vão ganhar o mundo, minha “filhota” ganhou penas, encorpou e ontem migrou para bem longe. Quando vocês vierem por aqui à tardinha não a verão mais. Minha avezinha alçou voo, coisas da vida.
Então, chegou a minha vez de experimentar o vazio da velhice.
A doce sensação de dever cumprido, os filhos formados e encaminhados não arrefecem minhas saudades. Tenho orgulho de ver essa minha engenheira já desvendando os mistérios da profissão, toda envaidecida de sua repentina independência, mas essa minha imodéstia vai demorar para preencher esse vazio, se é que vai.
Ah meus caros bem-te-vis. Despedir é tarefa difícil. Quero que ela guarde boas lembranças daqui.
No domingo fomos ver o Sol nascer. Praia de Tambaú, a maré alta estava escandalosa, barulhenta. Tive, lá com meus botões, a sensação da despedida dela com esse pedacinho de chão.
Meus bem-te-vis, cá estou eu, como dizem, recolhendo os cacos. Vou superar, claro que sim. Vou juntando as lembranças singelas, da menininha que chorava pouco, mas era geniosa. Gostava de bichos (ainda gosta), pensei até que ia ser veterinária. Vejo surgir entre as nuvens a garotinha que pediu que eu tirasse as rodinhas sobressalentes de sua bicicleta para mostrar-me seu prodígio no equilíbrio. Depois a habilidade no piano, os tempos de escola...trabalhosa que só. Os primeiros amores, mas como disse o “poetinha”, [...] “De antigos amores./ Que vieram, mas não era/ Um amor que espera./O amor primavera”. Hoje seu coração, me parece, ter achado esse tal de amor primavera. Tomara que sim.
É isso aí. Vou parar por aqui, encurtar esse adeus. Não deixem de aparecer nessas tardes de estio. Vou estar por aqui. Naquela mesma mesa. Mais triste, mas não vou deixar de comparecer... Como agora que juntei o que me sobrou para escrever essa saudade. E se eu sentir que está custoso levar em frente, conto com vocês para saber que rumo tomar. Então lhes perguntarei: E agora, bem-te-vis?