Sucessivas gerações lembram com saudade, certamente, dos antigos cinejornais, sobretudo do mais famoso deles, o icônico Canal 100, “o maior acervo cinematográfico do futebol brasileiro”, na justa avaliação dos seus idealizadores.
Para os que não sabem, aquilo que ia, semanalmente, aos cinemas do Brasil era muito mais do que a cobertura dos campeonatos e jogos amistosos. Conta-se que de 1959 até 1986, com um cinejornal por semana, o Canal 100, criação de Carlos Niemeyer com ajuda de Jean Manzon, difundiu 70 mil minutos de imagens sobre os principais acontecimentos jornalísticos de sua época.
Neste momento, os acordes de “Na cadência do samba” compostos por Luiz Bandeira e tomados como trilha da cobertura esportiva já levavam o público ao delírio.
A tela grande e a angulação de câmaras, até hoje não aprendida pela televisão, punham cada espectador dentro do gramado. Nada nem ninguém aproximou tanto o público dos passes, dribles e gols quanto o fizeram os cinegrafistas do Canal 100.
O genial Nelson Rodrigues assim descreveu a coisa:

“Foi a equipe do Canal 100 que inventou uma nova distância entre o torcedor e o craque, entre o torcedor e o jogo, grandes mitos do nosso futebol, em dimensão miguelangesca, em plena cólera do gol. Suas coxas plásticas, elásticas enchendo a tela. Tudo o que o futebol brasileiro possa ter de lírico, dramático, patético, delirante”.
Talvez, o cinejornal não fizesse mais sentido neste momento em que os acontecimentos do mundo, esportivos ou não, têm difusão imediata com a ajuda de satélites que dispõem o que quer que seja, em tempo real, nas telas da tevê ou dos computadores. Mas, nos idos de 1986, as maquinações do Ministério da Cultura com os lobistas do cinema americano apressaram a morte do Canal 100. Como? Resposta: impedindo a ideia da propaganda em cinejornal. Lastimavelmente, este foi o golpe de morte.