'Eu dei tudo o que pude dar. O que eu consegui aqui, nunca mais alcançarei'. Assim Camille Saint-Saëns falou sobre a última Sinfonia, uma das glórias de sua prodigiosa vida na música. A “Sinfonia do Órgão”, a terceira, é tida como uma das obras orquestrais mais significativas e tecnicamente sofisticadas do final do século XIX. Nela desfruta-se de uma notável concatenação de melodias, cores e invenção temática caleidoscópica que a tornaram tão apreciada, desde sua estréia em 1886.
Esta obra é uma caldeira sinfônica perene. Sua popularidade traduz a real conquista que fundiu tudo o que eram inovações genuinamente de ponta com os instintos inerentemente clássicos e convencionais de Saint-Saëns. Portanto, sempre que ouvi-la, esqueça o que você acha que sabe sobre ela e prepare-se para experimentar uma nova e ousada alegria de viver .
Saint-Saëns também reconfigurou os contornos básicos da forma sinfônica do século XIX, com o uso de teclados na estrutura orquestral. E não apenas um órgão - que faz sua entrada silenciosamente dramática no início do movimento lento - mas também um piano, que precisa de dois pianistas para se familiarizar com a figura virtuosista que criada para ele. Num reluzente carrilhão , a quatro mãos, evoca o tema principal do final, um dos momentos gratificantes desta sinfonia.
No segundo movimento, idem composto de duas partes distintas, há grande simbiose entre a melodia e o coro principal. O presto inicial é uma espécie de preparo com otimismo gigantesco para o grande final. Nele, fragmentos de sua melodia são disfarçados, transformados e finalmente revelados. O poco adagio do movimento lento introduz, crucialmente, a presença suave e secundária do órgão como um personagem-chave no drama da obra, e também atua como um momento de repouso visionário no meio dos sons e de todas as fúrias ao seu redor.
Conclui-se que esta obra alcança sua real ambição: empregar as técnicas progressistas de transformação temática, em que Liszt foi pioneiro no início do século (a peça foi posteriormente dedicada a ele, que morreu alguns meses após a estreia). Saint Saëns fez funcionar estas ideias não como partes de uma narrativa programática, mas como o mecanismo de um magnífico discurso sinfônico, simultaneamente abstrato e extasiante.