Na origem, um galo muito metido a besta achava que o sol só nascia porque ele cantava. Toda madrugada ele cacarejava e só depois o sol nascia. Até que um dia ele dormiu demais e quando acordou o sol já havia nascido.
Aqui na Paraíba eu já conheci uns quantos “galos” de Chantecler.
Quando meus pais estavam descendo a ladeira financeira com toda velocidade, fomos vítimas de muitas humilhações. Nada que a força do caráter de minha família não pudesse superar, inclusive provocando grandes risadas quando ao final de cada dia fazíamos uma espécie de competição para ver qual de nós havia levado a maior das pancadas.
“- Notei que vocês andam muito preocupados em dar satisfação aos fornecedores e aos bancos. Dessa maneira não sobra tempo para pensarem nas estratégias de soerguimento da empresa”.
Minha mãe vibrava com a conversa. Meu pai, mais cauteloso, perguntou qual seria a solução. O vitorioso empresário fez um muxoxo como se fosse dizer o obvio:
“-É simples; vocês precisam de um cash flow”.
“-Dona Creusa, cash flow é um fundo de caixa. Vocês separam uma quantia... aí uns quinhentos mil dólares, eu creio que já é suficiente, para pequenas despesas, e vão se concentrar nas questões macro”.
O pior é que ele disse isso falando sério. Quinhentos mil dólares? Os telefones estavam cortados por uma dívida que nem chegava aos quinhentos dólares...
Algum tempo depois, aquele vitorioso empresário quebrou na emenda. Acho que ele esqueceu de fazer um cash flow para sua empresa.
Mas pelo resto da vida, no seio de nossa família, sempre que alguém aparecia com uma ideia tão impossível como essa, minha mãe dizia:
“- Não me venha com cash flow”.