Foi sempre cheio esse consultório. É o consultório do dr. Azzouz, na rua Augusto dos Anjos. Há de ser mesmo de raiz oriental esse dr. Azzouz, para manter-se fiel ao mesmo lugar onde sua denodada aventura começou e logrou a confiança do “Vá ao dr. Azzouz!” / “Leve ao dr. Azzouz!”
Vendo-me entre muitos clientes, mesmo bem-comportados, em distanciamento, comecei a tossir, a sufocar atrás da máscara. E dei sinal à mulher e à filha, à espera da vez, que eu saía para respirar lá fora. Nem me advertira do lugar recôndito em que ia pisar.
Era por ali, olhando da esquina, que eu vinha do jornal, fechada a última página da noite, para a casa que pude alugar no fim da Aragão e Melo, na Torre. Casa onde descera um raio, matara a dona, e não aparecia quem se arriscasse a alugar. Como bem me lembro, apresentei-me ao dono, coronel Farias, comandante do Corpo de Bombeiros, e falei de minha disposição. “Sabe do estigma?“ – perguntou-me nestes termos. Vi que era um coronel letrado: “Ouvi falar”. E ele: “ Por que, então, vem arriscar? Há mais de ano que não alugo”. Dei o troco no mesmo estilo: “Não tenho alvitre, alternativa”. (Nesse tempo eu lia Camilo, Herculano, esses leões cansados.) “Como não tem alvitre?” / – “Estou sendo despejado, não é fácil achar quem corra o risco comigo”.
Ele abrupto levantou-se, apanhou a chave com mão grossa, e despachou-me: “Leve a chave, acomode-se, e pague quando puder.” Saí olhando para trás, e ele de pé, quase em sentido, sem mais palavra, sem um gesto, segurando-me com um olhar forte e duro que ainda não fechou na minha gratidão.
Com os olhos no chão, do lado de Germana, o piso ainda é do tempo do Gama, do prefeito Damásio, das origens de influência bizantina que devem ser as do dr. Azzouz. Mas é só o que resta em uso, com exceção de duas ou três casas nesse lado da sombra, que leva a me ver parado na esquina, tarde da noite, olhando para o que sobrou de homenagem à mais fulgurante das luzes da Paraíba, a rua de Augusto.