Só agora é que consegui pôr as mãos em uma curiosa caixa, em DVD, de uma série levada ao ar a partir de 1955 na TV norte-americana: Alfred Hitchcock Apresenta (ou Alfred Hitchcock Presents, no original, em inglês), título que rendeu um total de sete temporadas e exatos 266 episódios com muito suspense, mistério, terror e um certo humor claudicante.
Aquele ano de 1955, contudo, foi quando a audiência da TV superou a do rádio (por onde o cineasta também teve uma discreta passagem nos anos 1940) e, assim, o mestre do suspense deixou-se convencer por Lew Wasserman a encabeçar um programa para chamar de seu, o que para o britânico, foi mamão com açúcar, pois o diretor sempre foi um homem que sabia se vender demais e, como poucos, se promovia com maestria.
Hitchcock já passava dos 60 anos de idade e tinha para lá de 40 longas-metragens no currículo, títulos do quilate de Pacto Sinistro, Disque M para Matar e Janela Indiscreta (esses dois chegaram aos cinemas no ano anterior à estreia do programa) quando debutou na TV. Lá, parecia se divertir à beça, inclusive em cima de sua própria figura, já bem conhecida do público em função de suas rápidas aparições em seus filmes.
Posterizze
E é assim, como um humorista desses de palco – ao modo dele, claro – que Hitchcock se apresenta nesta primeira temporada, acomodada no box com seus 39 episódios e uma curta, porém reveladora entrevista com a filha Pat Hitchcock (presente em um dos episódios), como bônus da caixa.
Os curtas são puro deleite para fãs do mestre do suspense, afinal, são recheados por crimes, suspenses e histórias mirabolantes que só Hitchcock poderia apresentar, ao menos naquela época. O primeiro episódio, Vingança, trata de um casal que, quando o marido volta para casa depois de um dia de trabalho, encontra a mulher em estado de choque, pois, segundo ela, fora atacada por um homem dentro de casa. Sem contar com o apoio da polícia, o marido resolve tirar a história a limpo, ele próprio, mas a resolução desse caso não será tão fácil como ele imaginava...
O episódio conta com a direção do próprio Hitchcock (que faria um total de 16 curtas para o programa, três deles incluídos nesta primeira temporada), e o andamento é de tirar o fôlego, como o mestre gosta.
Os comentários jocosos de Hitchcock são uma atração à parte. No livreto que também acompanha a caixa, o estudioso na obra do diretor, Carlos Primati, explica que como muitas tramas acabavam com criminosos escapando ilesos – o que o código de ética dos programas de TV na América de então condenava com veemência –, mas, para driblar o código, o cineasta/apresentador sempre soltava uma graça para narrar uma atrapalhada do vilão que, invariavelmente, acabava pego. E a história acabava como a norma de então queria.
Uma busca rápida no YouTube, e percebo que há um vasto material do seriado por lá, muitos sem tradução em português, ou apenas trechos dos episódios, que no Brasil chegou a ser exibido pela Tupi e, mais tarde, pelo SBT.
Aliás, a mídia física tem dado muito mais atenção à Hitchcock que o streaming. É difícil encontrar até mesmo os mais consagrados títulos do diretor nas plataformas. Por outro lado, muitos filmes têm sido reeditados no Brasil. A Classicline, por exemplo, está compilando os primeiros filmes do mestre (ainda feitos na Inglaterra) em DVD (o segundo já está a caminho), enquanto a Versátil acaba de lançar, com capricho, uma edição em blu-ray de Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940).