A figura da madrasta comumente faz lembrar personagens desprovidas de afeto, inclusive estereotipadas negativamente pela sonoridade (“má”) da palavra portuguesa. Diferente da versão francesa: “belle mère” (bela mãe) ou do inglês “stepmother” (um grau de mãe) — que poesia... Nos filmes, romances e fábulas infantis são tenebrosas as referências de crueldade.
Na vida real também. Um dos conhecidos e comoventes exemplos é o de Chico Xavier, muito maltratado por sua (nada) belle mère, na difícil infância. Sofrimento compensado pela descoberta da mediunidade, ao ser visitado pelo espírito da mãe em conversas confortadoras e revigorantes.
Jane Eyre (1943)
Imagine quando a “madrasta” se personifica numa malvada tia “afim”, que passa a tutorar a órfã desamparada após a morte do tio, que dela cuidava desde a partida da mãe… Este, o início do revolucionário romance “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.
Muitas eram as dificuldades da convivência doméstica, não apenas pela falta dos pais, do tio, mas sobretudo por enfrentar o desprezo de todos, agravado pelo pior tipo de bullying — o que ocorre dentro de casa — que incluía até agressão física. As razões de tanta rejeição não se limitavam ao fato de Jane não ser filha, irmã legítima, mas — o que é ainda pior — por ser desprovida dos protótipos superficiais que tão equivocadamente conceituam a beleza de alguém.
Repudiada, mas longe de se curvar à repressão, a garota nutre progressivamente a convicção da necessidade de se impor. Ainda mais difícil pela condição feminina, num tempo em que a mulher era tão discriminada e desvalorizada. A típica hegemonia intelectual do homem na era vitoriana, período simultaneamente vivido pela autora e personagem, talvez confundidas na opção pela narrativa autobiográfica, obrigou Charlotte (tal como suas irmãs, Anne e Emily Brontë) a se esconder no pseudônimo com que assinou a obra. O que já demonstra o desejo de que Jane fosse diferente.
Jane Eyre (1943) Imdb
Os sortilégios infligidos a Jane estavam apenas começando. A personalidade forte que se delineava nas renitentes reações ao constante subjugamento que sofria foi confundida propositalmente como patologia psíquica para recomendar a sua internação em um orfanato.
A nova fase é igualmente desafiadora. Ainda que sob condições materiais muito limitadas, ela consegue estudar francês, piano, bordado, atividades condicionalmente femininas dentro dos rigores da escola. Nestes oito anos de confinamento, Jane progride, conhece a amizade, desperta a sexualidade, sofre perdas,
Jane Eyre (1943) Imdb
Ela quer mais! Candidata-se com boas referências a uma vaga de preceptora e passa a viver em uma tradicional mansão administrada por uma governanta de quem se torna amiga. Ali conhece laços familiares mais saudáveis do que os cruelmente vividos na infância, causa boa impressão e cultiva admiração recíproca pelo dono da casa, o Sr. Rochester, por quem se apaixona. Mas há muito mistério, fatos sobrenaturais, tentativas de incêndio, condutas esquisitas, gritos e gargalhadas nas noites densas e sombrias da gótica atmosfera de Thornfield Hall.
A convivência com o Sr. Rochester torna-se mais próxima e ambos se envolvem em um romance que caminha para o casamento, subitamente desfeito quando Jane descobre que o noivo esconde a esposa, psiquicamente enferma, confinada em um dos quartos da mansão.
Jane Eyre (1943)
“Posso viver só, se o respeito próprio e as circunstâncias assim o exigirem. Não preciso vender minha alma para comprar bem-aventurança. Tenho um tesouro interior nascido comigo, que pode me manter viva, mesmo se todas as delícias estranhas forem negadas”.
Este encontro consigo descortina-lhe uma realidade ao sabor de déjà vu. Desde que nasceu, as provações a que esteve predestinada a enfrentar se sucederam sem trégua. Logo aprendeu que só podia contar com ela mesma, sua melhor companhia, sentindo-se fortalecida a cada obstáculo.
Jane Eyre (1943)
Apesar desta admiração, Jane não cede ao pedido de casamento e à proposta de seguir com o missionário na sua jornada por outras terras. Mesmo porque vem a tomar conhecimento de fausta herança deixada para ela por seu tio, o que a faz decidir retornar a Thornfield para reencontrar aquele a quem nunca deixou de amar.
A fatalidade que se sucede oscilando com frequente intensidade no caminho de Jane já é percebida por ela como leitmotiv. Revivendo cenas do triste passado, recebe novo golpe, drástico e violento ao saber do grande incêndio provocado pela esposa do Sr. Rochester, em que ela se suicida, deixando-o cego e mutilado.
Com toda a desgraça, o reencontro se reveste do sentido mais amplamente atingido por sua consciência até então. Sabe que tudo que marcou sua vida de maneira tão severa fortaleceu-a, encorajou-a, fez-lhe crescer em sabedoria, solidificou sua coragem para evoluir e contribuir com um exemplo para o mundo feminino. Ainda que houvesse intenção da autora de se projetar na personagem,
Jane Eyre (1943)
A obra até hoje instiga mulheres, incentiva-as em sua luta por igualdade e provoca mudanças profundas nas reflexões e atitudes de quem a lê. Sua relevância promoveu transcrições, recriações, dramas sequenciais e adaptações em diversas formas de expressão, no cinema, rádio, séries e minisséries para TV, óperas, balés e até uma sinfonia!
Entre as mais de 160 obras do compositor John Joubert, repertório que inclui grandes corais, oratórios, réquiem, motetos, 3 sinfonias, concertos para piano, violino, violoncelo, fagote, sonatas, trios, quartetos e octetos, há 7 óperas. Uma delas — Jane Eyre! — quem sabe a mais aclamada, foi composta com libreto de Kenneth Birkin (escritor e doutor em Música) baseado no romance de Charlotte Brontë.
Joubert, músico britânico nascido na África do Sul (1927-2019) era confesso admirador de “Jane Eyre” e trabalhou durante 10 anos para compor a ópera homônima (opus 134, em dois atos) estreando-a em outubro de 2016,
Naxos
No ano seguinte, 2017, John Joubert acrescenta ao opus 178 sua 3ª sinfonia, reiterando o fascínio pelo romance e a gratidão ao libretista Kenneth Birkin, a quem dedica a obra dividida em 5 movimentos.
Nesta “Sinfonia sobre temas da ópera Jane Eyre” consolida-se o desejo do músico de escrever algo realmente dramático sobre o romance. Obviamente, ele já o havia alcançado através do canto lírico, na criação operística, mas queria retratar a saga da eloquente personagem com caráter grandiosamente sinfônico, uma vez que no trabalho anterior havia usado uma orquestra de dimensão moderada.
Agora, sim. A sinfonia oferecia total liberdade para se expressar de maneira ainda mais rica, intensa, épica, com todos os ingredientes do célebre enredo vitoriano. Para Joubert, nada como a música pura para transmitir com extrema beleza a obra romanesca de sua predileção. Nada mais afinado com o que escreveu a crítica e professora de Literatura da Universidade de Rouen (França), Stéphanie Bernard, em seu ensaio Uma história sem fim:
“A narrativa em Jane Eyre é a música com a qual ela dança, passando de momentos de alegria a momentos de angústia, de períodos de esperança a períodos de dúvida. As oscilações da escrita impõem um ritmo ao ato de ler enquanto permitem que outras mentes recebam o texto e o reescrevam em novas obras de arte”
Variadas criações reencarnaram o romance de Charlotte Brontë, entretanto dar-lhe nova vida em uma bela sinfonia como a terceira de John Joubert, no início de um século em que, equivocadamente, supõe-se que a criação erudita não possua a pujança de priscas eras, foi algo soberbamente inusitado. Há, sim, muita música clássica sendo composta atualmente, mas não tão veiculada ou mesmo ofuscada pelas produções de massa, bem mais ao gosto do frenesi consumista, na mira de um mercado imediatista e descartável. Um fenômeno descultural que atinge não apenas a música, mas muitas outras formas de expressão da arte.
Thornfield House | Lento |
Lowood School | Andante / Allegro |
Thornfield Church | Andante / Allegro |
Whitecross Rectory | Lento / Allegro |
Thornfield Park | Allegro |
Os andamentos remontam aos significativos lugares do romance e em que a ópera se encena, estruturados nos interlúdios que musicalmente os separam, escolhidos sem exatidão cronológica.
O início tremulado , com ares de prelúdio de tragédia lírica, sugere as tardes frias de outono na escola onde Jane foi internada após as tristes experiências sofridas em casa. Há uma certa atmosfera de suspense, perpassada
Jane Eyre (1943)
Sob toques de alvorada , a segunda parte descortina horizontes, a simbolizar a nova e impactante fase da vida de Jane. De início, o romantismo paisagístico desenha as belezas do lugar , a imponência da arquitetura e o deslumbramento diante do renovado e inusitado momento.
Os mistérios logo surgem à espreita. Aos poucos avolumam-se, revelando sinais intrigantes, aspectos curiosos no início, mas depois preocupantes e ameaçadores. Sons e gargalhadas que se escutam nas madrugadas, alguns eventos de natureza sobrenatural, intuições mediúnicas repentinas, surpresas que sucessivamente se aduzem recomendam acautelamento. Sem desanimar, Jane mostra-se sempre pronta ao enfrentamento do que a vida lhe apresenta. Neste andamento, John Joubert demonstra talentosa habilidade orquestral, a lembrar o pós-romantismo de Shostakovich, nas inserções rítmicas, diversidade tímbrica, sob o requinte da percussão delicadamente pontual, inclusive com xilofone. Os instantes solenes, ora marchantes, narram a suntuosidade cênica da edificação vitoriana e de seus surpreendentes labirintos, vez por outra entremeados de olhares à amplidão campestre do parque que acena do exterior pelas grandes janelas.
Jane Eyre (1943)
O quarto movimento — Whitecross Rectory — inicia-se sombrio , pois conduz ao local que testemunhou o ensejo de maior intensidade emocional: o reencontro da protagonista consigo mesma, sob fatalidade inexorável. Após saber que seu noivo era casado, recusa-se a prosseguir, embora apaixonada, por não conseguir ferir seus solidificados princípios ético-morais. Foge antes do alvorecer e, completamente só, fita o horizonte, arregaça mangas e coragem para seguir em frente.
Jane Eyre (1943)
Por fim, a resignação se consome suavemente preludiando a introdução do último andamento: Thornfield Park.
A música rodopia no ar! É hora de voltar. Jane promulga o que se pode denominar o coroamento de sua conturbada jornada existencial. Urge que retorne. A empolgante melodia insinua sofreguidão e velocidade para consumar a decisão. Está confiante, certa do seu amor, único e último desejo de realização. Sucede-se o bucolismo campestre a desenhar paisagens que ficam pelo caminho , desfilando aos olhos e às lembranças de tudo que viveu até então. Pressente intuitivamente que não será fácil a realidade que a espera. Mas mantém a calma, pois é de serenidade o que ela mais precisa para se deparar com seu grande amor, agora sem os olhos que tanto a contemplaram, debilitado, sem uma das mãos, mas com o coração, guardado há anos para lhe devolver, pleno de afeto, independente de tudo o que passou.
Jane Eyre (1943)