Estreia amadurecida a de Antônio Mariano no gênero romance. E amadurecida porque “Entrevamento” (Kotter Editora, Curitiba, 2021) tem como lastro, como suporte, o contista de “O Dia em que comemos Maria Dulce”. Quer dizer, Mariano não é um neófito em termos de ficção, pois a sua experiência vem de longe.
Por outro lado, se o conto e o romance são gêneros distintos, isso não quer dizer que sejam antípodas, que deixem de possuir algumas afinidades, tanto que o narrador carreia para o interior de “Entrevamento” alguns recursos estilísticos comuns aos dois gêneros. Mas nesse romance também está presente a poesia, uma vez que todos os gêneros se consorciam e conjugam esforços para a conquista de um objetivo comum: o de emprestar ao texto um caráter polifônico, múltiplo, regido por muitas e diversas vozes. Aqui, cabe não esquecer a tendência açambarcadora do romance, a sua pretensão de “oferecer uma imagem total do universo”.
Outro aspecto a destacar: as cenas de sexo que, em alguns momentos, poderia resvalar para o obsceno, para o escatológico, não fossem o engenho e a arte com que são descritas. Ou seja, se o termo obsceno pode ser tomado como “aquilo que rebaixa a carne”, a linguagem do narrador isenta o texto de qualquer laivo de vulgaridade ou de mau-gosto para privilegiar a literatura. Aliás, no romance “Entrevamento” tudo é literatura. Literatura e vida.

“Minotauros e blues” (Editora Leve, Campina Grande, Paraíba, 2021), de Bruno Gaudêncio, reúne poemas de atmosfera em que o eu-lírico se exime de apenas mimetizar os sentimentos. Em última análise, ele os sugere, torna-os implícitos, reivindicando do receptor uma leitura mais atenta.
Lado a lado de poemas que tratam a respeito de escritores com os quais mantém “afinidades eletivas”, outros existem em que a voz do eu-lírico desvela os seus próprios sentimentos, na medida em que busca assegurar a sua individualidade no burburinho das muitas falas da Torre de Babel em que se transformou a poesia brasileira contemporânea. Poemas como “Forma”, “Olhos fixos” e outros são exemplos da boa poesia.
O prefácio de “Blues e minotauros” é de Henrique Rodrigues. As ilustrações – bastante sugestivas – são de Felipe Stefani.