Numa fresca manhã de outono do ano de 79 d.C., o vulcão Vesúvio acordou de um prolongado sono de mais de 500 anos. Aos seus pés, floresciam vinhas e uma pequena cidade voltada para as alegrias da cama e da mesa: Pompeia. Em poucos minutos, fogo e cinzas sepultaram copos de vidro, jarras coloridas, estátuas de jardim e pães recém-saídos do forno. As casas decoradas com mosaicos e afrescos tornaram-se o túmulo de milhares de habitantes da cidade que cultuava dois mundos – o da morte e o dos prazeres.
Na vizinha vila de Oplontis, uma jovem mulher viu o perigo e tentou escapar. Pôs nos dedos os delicados anéis de ouro, um bracelete e – por uma razão que jamais saberemos – no pescoço colocou um colar de contas sem qualquer valor material.
Pompeia permaneceu soterrada por mais de dezesseis séculos e emergiu em 1748, preservada como uma cápsula do tempo. Desde então, fascina milhões de pessoas por trazer de volta, em detalhes, o modo de vida dos antigos romanos do século I. Ao ver seus pedaços, é inevitável o arrepio: móveis, potes e alimentos tão semelhantes aos das nossas casas do século XXI. Dois milênios se passaram e continuamos a fazer as coisas do mesmo jeito, a ver desaparecer preciosidades num piscar de olhos.
Em uma exposição de apenas 150 objetos vindos de Pompeia e Oplontis, revisitei a antiga sensação de que é necessário viver uma vida plena, pois que a morte está à porta. Num repente ela chega, arrastando consigo os tesouros que acreditamos carregar. Observei as esculturas de mármore em tamanho real, os feijões carbonizados e os palitos de dente feitos de ossos, fragmentos de um cotidiano desaparecido, retrato da fragilidade da existência e tradução da impermanência que marca todas as coisas.
A sexualidade, tratada com destaque e bom humor pelos moradores de Pompeia, era representada por mosaicos contendo cenas eróticas – alguns exibindo casais em pleno ato sexual ou esculturas com pênis de tamanho exagerado,
Nos jardins, afrescos com pássaros e plantas criavam atmosferas agradáveis, mosaicos com espécimes marinhas e toda sorte de objetos decorativos compunham os ambientes nos quais os moradores de Pompeia se dedicavam ao desfrute de tudo o que lhes era possível. Todos esses rituais de prazer estavam presentes nos detalhes que vi. Grupos de homens e mulheres reclinados em tricliniuns, bebendo as doçuras. Rostos sorridentes, copos cheios, belos corpos. Eternizados pela arte, atravessarão os séculos servindo-se de alimentos – lentilhas, grão de bico, feijão, frutas – em pratos de bela cerâmica. Numa redoma de vidro, descansava um pão enegrecido. Milenar pão, cujo formato caprichado me comoveu. Ao lado dele, jarras de vidro, potes de geleia, grelhas, forminhas de mini bolos e travessas parecidas com as que encontramos em qualquer loja do mundo. O mesmo percebi nos equipamentos agrícolas. Foices, ancinhos, enxadas tão iguais.
Observar cada objeto banal traz lampejos da Pompeia de abundantes festas, música, bebida, sexo e mil outros deleites. É quase possível ver homens e mulheres festejando, reclinados, deliciando-se com os pratos que vinham das escuras cozinhas; sentir os mexilhões a cozer nos potes perfurados, provar o gosto de peras e uvas servidas nas bandejas. E, de repente, num átimo, tudo soterrado, queimado, perdido. Escravos e senhores, jovens e velhos, bons e maus transformados em estátuas de cinzas.
Vêm à minha mente os recados dos poetas. Primeiro, Horácio e seus versos imortais “dum loquimur fugerit invida aetas. Carpe diem quam minimum credula postero” (enquanto falamos, o tempo invejoso passa voando. Aproveite o momento e confie o mínimo no amanhã); depois um texto (Pseudo Virgílio, acho) no qual uma anfitriã vê a morte puxando a orelha de um folião e sussurrando: “Vivite… venio” (viva, pois estou chegando).
Afrescos de Pompeia
Sorrio, medito no significado e faço como os romanos: ergo a taça dos meus dias em um invisível brinde à vida.
Carpe diem.