Tempos atrás escrevi nesta coluna uma manifestação de protesto em desagravo a uns vizinhos que tinham vindo morar aqui ao lado. Entre eles e os aqui de casa apenas um muro fazendo fronteira. Do outro lado, uma menina que chorava dez horas por dia e um galo que começava cantar as três da matina. Nem duraram seis meses e Deus deve ter ouvido minhas fervorosas preces e ajeitou para que eles se mudassem. Desapareceram. Bernadete, a menininha, deve estar arrastando suas manhas noutras vizinhanças; já o galo... Se não virou um guisado deve estar atormentando outras gentes, em outras freguesias. Ufa!
Meu novo avizinhado é um mocetão já passado dos trinta, separado da mulher e que resolveu aproveitar essa sua repentina solteirice bem onde Bernadete chorava e o galo cantava.
Até aí nada de anormal, pessoas casam, algumas se separam. O problema não está no estado civil dessa criatura, nem nas companhias (a maioria femininas) que por ali aparecem. Afinal, a vida é curta, se a gente não aproveitar enquanto pode... E o rapaz está aproveitando, pelo menos é o que indica os gritinhos que ouço da minha janela. E mais: os gritinhos de uma noite nem sempre são iguais aos da noite seguinte, o que sugere uma variação muito acentuada no elenco dessas pantomimas.
Nada disso me incomoda. Não mesmo. O problema está nos fins de semana quando esse vivente liga o som do carro. E vamos combinar o seguinte: o amigo leitor, a estimada leitora, já viram alguém que coloca aquela parafernália capaz de estourar os tímpanos de que quem está por perto, ter bom gosto musical?
Isso aqui começa umas nove da manhã e vai até à noite lá pelas nove também. Domingo a mesma coisa. E mais, minha gente: nada tão democrático qual o mau gosto, quem o tem, gosta de partilhar, não guarda só para si. Daí o volume nas alturas.
Domingo que passou foi assim. O desconforto não me permitia ler, escrever, nem mesmo assistir um filme. Dormir nem pensar. Então resolvo pegar o ciscador e recolher as folhas de cajueiro que estavam se acumulando no quintal. Eu ali na lida, molhei as plantas, podei uma roseira, dei um trato na orquídea, alimentei os canários. E quando eu menos esperava o deletério colocou a caramunha por cima do muro e...
— Bom dia, vizinho! — todo sorridente e antes que eu respondesse — aceita uma?
E me ofereceu uma latinha de cerveja, marca das mais consideradas. Olhei aquilo, pensei, pensei e... Por que não? Aceitei. Nem dez minutos depois e ele novamente:
— Aceita outra? Tá geladinha, olha só. No grau!
— Aceita? É argentina. Tá uma delícia! — para quem aceitou duas latinhas, que mal havia em aceitar um pedacinho de picanha, ainda mais argentina. E a cortesia deu seguimento – mais uma latinha, vizinho, picanha sem cerveja não combina.
Não combina mesmo. Na quinta latinha, mais alguns nacos de picanha ao ponto e umas lingüiças apimentadas ele quis saber:
— O som tá incomodando?
— De jeito nenhum. Eu até estou curtindo — e disse isso até com alguma convicção.
Do que a corrupção é capaz!