Vá se entender os prêmios literários. Vá se procurar entender os requisitos que levam a uma premiação como o Nobel de literatura, por exemplo. Esforço totalmente vão, certamente. Afinal, quais os critérios determinantes, além dos óbvios? Quais as razões subjetivas ou não literárias que habitam a cabeça dos que escolhem os premiados? Quais as influências de todo tipo (políticas, geopolíticas, ideológicas, econômicas, culturais, sexuais etc.) que terminam influindo sobre os julgadores? Nunca saberemos.
De volta ao mistério. Ah, mas como demorou! Assim pensamos, os de língua portuguesa, quando a Academia sueca decidiu premiar Saramago. Tão logo a notícia espalhou-se, foi como se tivesse sido finalmente vingada alguma injustiça secular para com a última flor do Lácio, pátria e patrimônio de milhões, em vários continentes.
E o que muito me intriga também são os prêmios que não foram dados a quem notoriamente os merecia. E são tantos os casos. Mas nenhum, creio eu, mais escandaloso que o de Jorge Luis Borges, o mais universal e consagrado de todos os hermanos. Como se sabe, o argentino faleceu em 1986, quase nonagenário e mundialmente aclamado como um dos mais importantes escritores do século XX. Era, desde antes, um nome internacional, conferencista e professor nas melhores universidades do mundo, autor de livros traduzidos nas principais línguas, portanto plenamente conhecido pelos acadêmicos suecos. A crítica ocidental compara sua importância para a língua espanhola à de Cervantes,
O Brasil, coitado, a despeito de alguns grandes poetas e romancistas, nunca teve nenhuma chance nessa área. Culturalmente, somos e continuamos periféricos. Conta-se que o mais perto que chegamos de um Nobel foi com o da Paz, negado a Dom Hélder Câmara também por suposta pressão dos militares então no poder. Mas é difícil acreditar na eventual influência de uma república de bananas sobre a distante e civilizada Suécia. Entretanto, como disse, tudo é possível.
Os prêmios são importantes, claro, mas devemos relativizá-los. O celebrado escritor holandês/austríaco Thomas Bernhard escreveu que os prêmios serviam pelo menos para ajudar a pagar a troca de seu carro velho. Eis aí uma boa justificativa para as premiações.
Talvez não fosse despropositada a criação de um Nobel póstumo. Desse modo, a Academia sueca teria a chance de corrigir erros, omissões e injustiças. Não que para Borges e os demais esquecidos isto viesse a ter algum valor. Sabemos que os prêmios, os títulos e os fardões são meramente acidentais. Acima de tudo – e no fim – o que importa é a obra. Esta, quando valorosa, sobrevive, e paira, altaneira, sobre o pó de tudo o mais.