Grande Sertão: veredas, romance de João Guimarães Rosa, é uma história de amor. Sim, uma história de amor que não poderia, pela lei da jagunçagem, ser revelada ou ser vivida. Mesmo que depois se descobrisse o mistério que envolve esse amor, o estrago, em nome da honra e da macheza, já teria sido feito e de modo irreversível. Não se espantem que esta monumental prosa seja uma história de amor. Mas é. Não há nada de incomum nisso, mesmo para um escritor como Guimarães Rosa. Se duvidarem, é só pegar, como exemplo, Sagarana e tentar descobrir em que conto não há uma história de amor, resultando em tragédia pessoal.
Não culpo os leitores de primeira viagem por não perceberem isto. Na primeira leitura de Grande sertão: veredas, eu era um garoto cursando Letras, lendo o livro por desafio e obrigação. Pouco me aproveitou. Algumas frases guardadas na memória, como boas tiradas, para se dizerem em ocasiões especiais (“Quem muito evita, se convive.”, p. 13; “quem mói no asp’ro, não fantasêia.”, p. 15; “Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”, p. 18); uma visão pálida e geral da história, além da ênfase na linguagem, para mim, nova, difícil, desafiadora, mas harmônica e ritmada. A segunda leitura foi realizada há dois anos, em 2019, servindo para me situar melhor, criou a expectativa e a necessidade de uma terceira leitura, agora iniciada e já avançada. Rosa, como todo grande escritor precisa de várias leituras, em etapas diversas da vida, quando podemos apreciá-lo com as novas experiências adquiridas.
Digo isto, porque Riobaldo sabe como tecer a trama, de modo a enredar o seu interlocutor e o leitor, deixando-os bem atados e na expectativa de saber mais desse amor economicamente pingado, em meio às narrativas de viagem,
Grande Sertão, 1965
Ao seu interlocutor, Riobaldo confessa que aceita as preces do seu compadre, “doutrina dele, de Cardéque (p. 19)”. E nada falta ali:
■ os umbrais e a eterna luta de quem quer se transformar contra os espíritos obsessores, (“Compadre meu Quelemém descreve que o que revela o efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto.”, p. 14);
■ o trabalho para a reforma íntima, por querer mudar a si mesmo para ser melhor, não melhor do que os outros, mas melhor para o outro, como se vê em Aleixo, “homem das maiores ruindades calmas que já se viu” e por ver os quatro filhinhos cegados pelo sarampão “demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser
■ a reencarnação (“Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente tornar a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo”, p. 17);
■ a mudança de vibração para atrair a proteção de espíritos que estejam numa mesma sintonia (“Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem.”, p. 18);
■ a lei do retorno (“Eu confiro com compadre meu Quelemém, o senhor sabe: a razão da crença mesma que tem – que, por todo o mal, que se faz, um dia se repaga, o exato.”, p. 23);
■ a consciência de que o trabalho é constante e que se colhe o que se plantou (“Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...”, p. 48).
Claro está que Riobaldo acolhe a doutrina de uma maneira menos elaborada do que os estudiosos dela, mas a sua essência está bem evidente.
E em meio a esse mar de informações, o amor vem de modo avaro, como um petisco que se oferece ao interlocutor e ao leitor. Pestisco, para nós, apetitoso, mas amargoso para Riobaldo, porque produto de uma expressão quase inefável, envolvido que se encontra em culpa, vergonha, asco, tentação e desejo. Escamotear, no entredito, esse amor que não se pode exprimir pelas leis da vida de jagunço e pelas circunstâncias de tempo e espaço, é uma estratégia de Riobaldo, afinal ele não é um rio baldo?
“O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?
E as ideias instruídas do senhor me fornecem paz” (p. 35).
Falar de si, para um estranho, de coisas íntimas, procurando escutar-se, para expurgar o indizível e inconfessável, que incomoda, só é possível na terapia e isto se torna a essência da conversa de Riobaldo. Longe de mim a intenção de fazer psicanálise, pois nem entendo dela – o único contato com ela é como analisando, já há oito anos –, nem é da minha alçada, pois como professor de literatura analiso um texto a partir das possibilidades que ele apresenta, mas sem esquecer que se trata de um texto ficcional. E uma das possibilidades de acessar o Grande sertão é essa sessão rústica, com a palavra no seu sentido latino, de psicanálise.
O título do texto até agora não se explicou, mas deixei para o final de propósito. “Deus é paciência. O contrário, é o diabo” (p. 20). O leitor que quiser fazer a difícil travessia do Grande sertão e não ser tragado pelas terras traiçoeiras do Liso da Sussuarana, nem se deparar, em algum plaino, desarmado, com Hermógenes, deverá ter a paciência da leitura e das releituras dessa magnífica obra incontornável da literatura brasileira. Precisa ter paciência como Deus, acreditando que a sua criação saberá se transformar e melhorar, se não se deixar levar pela pressa do Tinhoso. Qualquer dúvida, “compadre meu Quelemém está aí para fiscalizar” (p. 21).