Parado em busca de um transporte que pare e o leve. Inicialmente, acredita ser enviado ao futuro num ônibus com uma placa qualquer com um número e um nome indicativos de um destino previsível. De fato, um caminho feito em ritmo de dejá-vu, uma volta ao mesmo lugar, uma revolta ao ponto inicial. E um veículo se aproxima. Braço esticado, velocidade reduzida, embarca, senta, respira, transpira.
Aos solavancos balança, avança. Feito a vida o ônibus segue seu itinerário. Parada, para, engole pessoas por uma porta, cospe outras. Portas são bocas que comem e vomitam passageiros. As catracas são as vísceras e o intestino que com som metálico da falta de lubrificante funcionam como calculadoras que trituram os seres alimentos. Em seus pés, o número feito sorteio viciado gira infinitamente e aponta quantos foram levados, trazidos, deixados.
É preciso equilíbrio mesmo para quem está sentado em meio ao desequilíbrio coletivo. Conto as paradas, perco as contas dos rostos, dos sussurros, dos caminhos, iguais e desvios... E cruzam-se olhos, mãos desconhecidas se esbarram, pés indiferentes se pisam. Colisões, encontrões e empurrões solidários nos apertos rotineiros.
Lá vai o ônibus de parada a parada, ponto a ponto, avançando e atrasando horários, rígidos na planilha, flexíveis na maré do trânsito. Até chegar ao suposto ponto final, tão somente uma nova parada, o reinício da viagem, o reencontrar as almas e seus braços esticados, pedindo embarque, crentes ser um transporte, tão só uma pausa. A descida nunca é realmente a chegada. A única é a morte, que não pede nada, tão somente ordena que se suba aos que não querem parada... e prossegue sem indicar o destino.