A velhice costuma se apressar para os mergulhados na penúria, e nem mesmo um punhado de crianças ainda na pré-adolescência, como aquele, viu-se livre dessa tendência. Embora desde muito cedo ilhadas pelo baixo ou nenhum interesse que vidinhas obscuras, feito a deles, fossem de despertar em seu entorno (ainda mais que numa época ensombrecida por ditadura militar), elas lograriam, no entanto, alcançar uma espécie de brilho fátuo e certamente meteórico, quando um resto de infância ainda lhes era de percorrer, e quando, mesmo assim, para a maioria delas a vida talvez já entardecesse.
O certo é estarem presas, juntos com seus familiares, na curva ruim de um gráfico hipoteticamente concebido para cruzar dados de pobreza crônica com economia estagnada, embora isso não impeça que um ou outro desses meninos vá ser visto, heroicamente, a se debater na maré braba.
É a partir daí que o pequeno prestidigitador de rua assume condição de donatário regular pela encenação diária da façanha, e esse modo de recolha, por nascido diluído em alegria coletiva (livre dos estigmas e símbolos tradicionais da mendicância), se naturaliza por uns tempos.
Este, o padrão. Repetido na maioria das crianças pobres que iam surgindo. Todas prodigiosamente dotadas de algum insólito quinhão de talento.
Fiquemos com alguns exemplos, mas, avisando desde já que o mais extremo será o de Lopinho, que mora com os pais numa tapera à beira da rodagem, e um dia, sem mais nem quê, surge falando língua estrangeira, no que acaba sendo levado pelos três forasteiros que vêm à sua procura. Os mesmos que dão uma impressão inicial de pessoas educadas. Discretas. Corteses. Antes dele, porém, vamos a “Chililique” (não ficou registro do nome verdadeiro).
Pequeno e branco, tem cabelinho ralo. Seu corpo é o severo relato de uma vida trazida até ali sem maiores insumos. De membros curtos, aparentemente frágeis, o tronco é raiado pelo relevo das costelas, que, num paradoxo imagético consegue dar a impressão de um tanto volumoso em relação ao restante. Sobre esse tronco se encrava diretamente a cabeça massiva. A idade, indizível entre os cinco e dez anos. Mas, pode ser que alguma coisa mais, além da pobreza, o tivesse impelido à rua.
Sem esperar pedidos, começou seu número, que era de grande estridência.
Para surpresa geral, por dentro daquela garganta que mal aparentava lastro externo de pescoço, um sistema de cordas vocais extremamente vibráteis estalou no ar, fixou-se ali e deu a impressão de que, há tempos, clamava por um público. O sucesso foi instantâneo, e a partir dalí, Chililique fará ponto na pracinha, onde mais transeuntes circulam.
A música do rádio que ele canta é de natureza bem especial: o repertório resume-se nela. Solicitado, alça-se o pequeno em uma voz subitamente transformada em veículo do desespero, de tão fina e esganiçada. O tom, sempre alto, eleva-se ainda mais se ele imita o arranjo da sanfona – uma oitava acima –, e volta depois a entoar na voz um incrível Chi-li-li-que que acabou lhe virando marca registrada.
A canção é um trepidante forró, porém o pequeno cantor não apresenta movimento corporal algum, ou expressão fisionômica que supere a de um besouro anunciando o outono. Sentado ou em pé, estridula igual, numa impessoalidade típica de cigarras.
Visto assim, o garoto forma um conjunto blocado que parece independer de expansão pulmonar para disparar o canto, ou modular a voz. Quem o ouve acreditaria se alguém lhe dissesse que aquela voz estridente fazia ferver as moléculas do ar em volta de um centro emissor eletrônico, um dispositivo sonono, localizado por dentro de seu tórax.
Os pagantes não contém o riso diante de apresentação tão singular, e alguns, talvez no generoso impulso de irrigar a veia do talvez futuro artista popular, deitam-lhe moedas. Severino Luiz dos Santos, Biuzinho, em torno dos 6 anos, baixava o elástico do calção e dava sua mijada padrão, tabelada em hum mil réis (as sucessivas carestias tinham feito desta elevada cifra a unidade monetária da época). Talvez sem que perceba, a criança vende a ilusão de ter nascido com o estranho propósito de ser um inesgotável repositório de urina – exagero dificílimo de sustentar, caso venha a fraquejar no controle do estoque.
Dá para imaginar o tamanho da dificuldade em cumprir pela rua um roteiro diário cuja execução dependa, incondicionalmente, de uma reserva líquida armazenada por bexiga e rins. Constatar se tal reserva era finita, ou não, foi tanto uma consequência do ceticismo de seus opositores, dispostos a desmascarar o que consideravam propaganda enganosa, quanto uma possível e justa extensão do assombro provocado no público crédulo. Um público, sem dúvida mais generoso, cuja maioria talvez não estivesse nem um pouco preocupada com alguma questão de finitude relacionada a esse mistério urológico por nome de Biuzinho.
A questão é que faziam isso perversamente, depois que acabara Biuzinho de verter várias vezes na canaleta da rua. A intolerância dos adultos talvez pretendesse rebaixar o que era uma indiscutível proeza fisiológica a simples – e eventual – distúrbio num sistema excretor de impurezas. Denegrir as performances de Biuzinho visava talvez desmobilizá-lo, e o objetivo final de tanta perversidade talvez fosse repudiar o assédio da criança cuja fama havia se espalhado e vinha atingindo outras Freguesias. Essas adversidades partiam, invariavelmente, de fregueses dos bares da praça, que se tornavam mais ou menos intransigentes conforme a quantidade ingerida de álcool até o momento.
Porém a lida diária ensinara o pobre garoto – que parecia manter em si, intacto, o sistema linfático dos répteis que um dia fomos – a não desperdiçar seu recurso, e assim, a oferta de mijo – inicialmente generosa – se foi restringindo. Encolheu à medida que aumentou a sanha de seus opositores, e no final, o antigo esguicho se viu reduzido a jato de um segundo ou dois. Um mínimo suficiente para satisfazer o pagante.
Por outro lado, testemunhos oculares opinariam, anos depois, que o principal atrativo do fenômeno Biuzinho fora sua presteza no atendimento. Não deixar o cliente esperando. Rapidez no gatilho, sua virtude maior. Nem bem avista a cédula na mão do pagante, já arria o calção, e, prontamente, o jorro vem.
Essas testemunhas trabalhavam, à época, em bares próximos à morada de Biuzinho, num raio de 100, 150 metros da sua casa, e essa circunstância repetida aventa a possibilidade de que o garoto, por uma questão de segurança hídrica, não se aventurasse muito além dos entornos da casa onde morava.
Já o pequeno Damasceno fugira um pouco ao biótipo consagrado. Parecia ter contado até ali com um pouco mais de sorte – a pobreza não lhe cunhara marcas pelo corpo. De raça muito branca, traz sempre o calção muito arriado na cintura, o que deixa entrever veias azuis entre a barriga e a virilha. Mas, que faz ele? Basicamente será pago para reproduzir trejeitos e andares, o que só consegue depois de observar em silêncio – por alguns momentos em que se mantém discreto, ar ausente – o indicado da vez.
Impressiona, nesse pequeno, a poderosa capacidade para identificar o gesto inconfundível de uma pessoa, tido como manifestação exata de algum estado psicológico que ele, Damasceno – na mais fina sintonia –, consegue perceber em ligeiro estado de alteração. Testemunhos dão conta de que, em mais de uma oportunidade, o garoto é ovacionado ao final de um número em que havia acabado de brindar os presentes operando nova transfiguração na imagem que, até então, tinham tido de alguém.
Em segredo, fazendo-se de morto, Damasceno constituía-se em poderoso posto de observação, e num desses mimetismos, deixou claro que um dos frequentadores habituais da calçada da Igreja tinha por hábito esfregar demoradamente as duas mãos e depois passá-las, rapidamente e em concha, sobre os lados do nariz (como se o moldasse). Um gesto recorrente que traduzia – no imitado – a ânsia em ver aproximar-se sua vez de tomar a palavra, momentos antes que lhe fosse aberto espaço na roda para começar o relato de mais uma de suas façanhas de natureza, muito provavelmente, duvidosa. De forma exemplar, aprendiam com o prodigioso Damasceno como um gesto recorrente pode traduzir alteração da psique, e em seguida, dar luz à nova ficção. Antes de soltar uma mentira, ele faz assim Avisara Damasceno.
É que essa variante de serviços o obrigava a fingir um momento de convalescença após o piedoso socorro das beatas, o que ele certamente fazia, mas – prevenido – já com o pagamento no bolso, uma vez que dificilmente seu ‘produtor teatral’ ainda estaria por lá para cumprir sua parte no trato, quando aquelas mulheres se fossem.
Severino da Silva Lopes, Lopinho, foi outro legítimo representante dessa versão mais proletária e um tanto trágica do menino-prodígio. Seu dote foi assombroso, e dele não se sabe quanto rendeu – se rendeu – no final. Diferente dos outros, porém, Lopinho não é motivo de riso. Nem mantém serviço à venda.
Tinha cor ligeiramente escura, e apesar do tronco largo, era extremamente magro. A camisa, pequena e apertada deixava ver, entre um botão e outro, a pele encardida e esticada. Por baixo da camisa via-se o tórax, de estrutura assemelhada a um cavername de barco. Não ia além dos dez anos de idade no dia em que amanheceu falando coisas estranhas. O que diz, ninguém entende, e ele gesticula, agitado.
Depois de uma primeira reação de espanto, prematuramente mesclada de empolgação, as pessoas caem em consternação – temor – pela sorte do menino. Houve quem levantasse a hipótese de um Lopinho portador de forte mediunidade. Outro foi além, falou de possessão. Muito se confabulou, até alguém sair-se com a ideia de levá-lo para a única pessoa conhecida dentro dos limites da Freguesia que, por sorte, jogaria luz no mistério: Frei Augusto.
Que o Frade Franciscano fizesse longas explanações a cabras e jumentos não foi jamais motivo de espanto naquela Freguesia. Diziam ainda que o religioso levava um tempo estudando o temperamento de um animal para ter a certeza de lhe confiar tarefas. Muitos chegaram a testemunhar o estranho poder – ou a habilidade - que teria o religioso para identificar talento secreto nos animais de criação, lhes descobrir vocação.
Quando lhe trouxeram o garoto, ele – enérgico como sempre – os conduziu até a porta. Pretendia ficar a sós com a criança. A entrevista avançou pela tarde, mas, ao final, o Frade os chamou de volta. Se disse impressionado. Para grande perplexidade de todos, o Frei Augusto lhes confidenciou que, por trás daquele aranzel de fala, havia uma rica cesta de dialetos, por ele estudados – coincidentemente – no tempo do monastério, em Assis. No meio desses arcaísmos de língua italiana, porém, o monge detectara algumas estranhas expressões em português: Quero Cuia e Quero Braça estavam entre as que lhe soaram mais claras.
Mas, para decepção geral, o Frade confessa desconhecer a gênese de tão extraordinário milagre. Em compensação, promete discutir o assunto com autoridades eclesiais. Recomenda deixar o menino em observação, alerta para um possível agravamento da situação, que possa requerer prática de exorcismo. Por último, pede que rezem pela alma da criança.
Relíquia viva da escravidão no Brasil, Ocino (como lhe chamavam) nunca soube ao certo o ano de nascido, e as pessoas se divertiam especulando sobre a sua idade, embora não duvidassem de que o venerando velhinho era um desses raríssimos seres a quem deus concedera a proeza de aspirar o mesmo oxigênio contido em três séculos distintos.
Por esse tempo, possuía Ocino o hábito, frouxo e perdoado pela velhice, de emendar um assunto no outro desde que um elo qualquer os unisse, e assim foi que, tão logo escutou a história das estranhas falas reveladas pelo frade, com as frases recorrentes em língua portuguesa, pôs-se, naturalmente, a recordar os dias tumultuosos do "Quebra-Quilos".
Por sua vez, Frei Augusto assegurara ter encontrado nas falas de Lopinho Verdadeira miscelânea de derivados do Latim, Chegou a esta conclusão depois de nelas identificar o que chamou Ecos do Vêneto e do Saboiano, dialetos que começaram a perder força na península itálica ao tempo em que Dante conclama a futura nação a abandonar seu habitual inferno de línguas, e adotar uma só forma de repetir as coisas de sempre, enquanto o beletrista e versado em História popular, Afrísio da Maturéia, convocado a dar sua opinião, confirmou maravilhado que, daquelas expressões, algumas lhe eram, de fato, reconhecíveis. Têm seu lugar na história Ele disse. Correspondiam a alguns dos bordões populares repetidos durante o episódio ocorrido nos derradeiros anos da monarquia no Brasil, e que ficou conhecido como ‘’A Revolta do Quebra-Quilos’’.
Zé de Bira, o dono do hotel, lhes trouxe os pais de Lopinho, que puderam conversar a sós com os estrangeiros, em um quarto. Soube-se depois que acabaram consentindo àqueles homens levarem seu filho para uma Universidade estrangeira, onde pretendiam solucionar o caso, e depois lhes devolver a criança – devidamente curada. Não se sabe se, entre eles, tramitou algum dinheiro.
Mas, aqueles foram tempos difíceis. As pessoas tinham muito medo de falar. Os pais de Lopinho eram muito pobres, e depois de um tempo se mudaram da Freguesia.
Uma primeira versão a circular entre os habitantes dá os estrangeiros como italianos, uma segunda, americanos, depois alemães, holandeses...talvez interesse saber que resolveram partir de madrugada, longe das vistas de todos e levando uma criança sedada, como confessou, depois, Zé de Bira.
Ficamos, porém, sem o desfecho dessa história assombrosa. Sem qualquer notícia de sorte, de destino final de Lopinho. .
Do livro "A Substância Brown", disponível na Livraria do Luiz ou com o próprio autor (WZap: 83 / 98875-7321)