Datilografei meus primeiros romances – nos anos 70 - e algumas peças de teatro – nos anos 80. Os filmes de que participei como ator, naquele tempo - O Salário da Morte (de 69 ), Fogo Morto e Soledade ( de 76 ) não tiveram som direto, por isso eu e a maioria dos atores fomos dublados no Rio. Os comerciais que criei pra TV eram feitos em 16 milímetros e levados ao Recife, pois não havia o vídeo e não tínhamos emissoras locais.
De 68 a 70 eu tivera de me esmerar nas máquinas de escrever - com fitas copiativas ( que não admitiam rasuras ) - ao fazer os balancetes diários e os balanços da agência do Banco do Brasil em Pombal, da qual era o subgerente. Quando escrevia algum artigo para a imprensa, tinha de levar o texto datilografado para os jornais, e cheguei a ver alguns linotipistas preparando os clichês de meus textos, e ainda ouço as delicadas zoadas metálicas de letras caindo para seus devidos lugares.
Dispondo do Google, minha frequente levantada pra consultar dicionários e enciclopédias, atrás de mim, praticamente cessou, minha paixão pela pintura passou a ter filmes – em vez de fotos – das obras de Arte de todo o mundo, comecei a ouvir concertos como nunca – a mesma obra executada por cinco, seis solistas, regida por sete, oito maestros, em sinfônicas e filarmônicas de toda parte, enquanto acompanhava, passo a passo, ao vivo, pelo facebook, a criação do “Claustro” de Flávio Tavares.
Um pouco antes, os irmãos Lumière disputaram com Edson (e vários outros) a criação do cinema - graças à invenção, então recente , da fotografia e do celulóide.
E quantos disputaram a paternidade das fotos!: Daguerre, Niépce, Bayard, Florence, tudo graças à junção da câmera obscura com a fotossensibilidade dos sais de prata, comprovada pelo físico alemão Johann Heinrich Schulze ou Schultz.
Seurat – criador do pontilhismo - se encantou com “Da Lei do Contraste Simultâneo das Cores”, do químico Michel-Eugène Chevreul e sua descoberta da produção de uma terceira cor quando duas outras são vistas à distância, se justapostas – o amarelo com o azul criando o verde, o amarelo e o vermelho criando o laranja, etc.
A explosão colorística e luminosa do Impressionismo, no entanto, só foi possível com o abandono dos estúdios, a pintura passando a ser em plain air - ao ar livre - graças à invenção dos tubos de tinta, feita por um apagado pintor inglês - John G. Rand, em 1841.
Carpeaux dizia que os grandes escritores sempre estiveram na convergência dos acontecimentos, a exemplo de Virgílio, que vivia colado no imperador Augusto - daí “A Eneida”.
Já Hemingway foi ser motorista de uma ambulância militar na Itália, durante a Primeira Grande Guerra - daí o “Adeus às Armas” - e foi correspondente de guerra na Revolução Espanhola - daí “Por Quem os Sinos Dobram”.
É o caso de Euclides da Cunha, correspondente do jornal “O Estado de São Paulo” na guerra de Canudos, vivência que lhe valeu “Os Sertões”. Não por coincidência, moravam no mesmo quarto, em Paris - centro do mundo nos anos vinte - os jovens espanhóis Buñuel, Lorca e Dali. Andy Warhol - já em outra estrutura – fez sua arte revolucionária graças à própria profissão: desenhista publicitário, no instante em que Nova Iorque se enchia de luminosos e outdoors.
Já Picasso e Braque deram ao mundo o cubismo, no instante em que a Teoria da Relatividade desintegrava todas as velhas formas de ver as coisas.
Outra, no pós-guerra, para que dele surgissem os anos 60 com sua revolução nos costumes, incluindo-se nisso a pílula anticoncepcional , criada no exato momento em que se começava a perceber... a superpopulação... em todo o mundo.
Eric Hobsbawm percebe a olho nu, em seu “A Era dos Extremos” , que na segunda metade do século XX não há mais rodins ou picassos, gershwins ou stravinskis, pounds ou eliots... e que o único grande ficcionista consensual foi Gabriel García Marquez... e que a filosofia falira. As artes, na primeira metade dos anos 900, caracterizaram-se - todas - pela busca da desintegração total. Joyce sacudiu o romance em 1914 - início da Primeira Grande Guerra - com “Ulisses”, e acabou por pulverizá-lo em 1939 - início da Segunda Guerra Mundial - com “Finnegans Wake”. A pintura chegou ao “Branco no Branco”, de Albers, e aos cortes feitos com faca na tela virgem, de Lucio Fontana. O pós-modernismo, consequentemente, surgiu na ressaca de tanta virulência, materializada pela eclosão nuclear e a devastação total - física - do ser humano.
Impressionou-me a leitura de um livro de 1925 - do entreguerras, portanto - “A Desumanização da Arte”, em que José Ortega y Gasset tenta compreender o que estava ocorrendo com sua época. “A nova arte é um fenômeno de índole equívoca - diz -
Giúlio Carlo Argan, em “Arte Moderna” diz que Arte é coisa de artesão e que o artesanato já tivera seu tempo e que a hora era de partir pra grandes soluções urbanísticas, objetos de uso cotidiano, a fotografia, a publicidade, o rádio e a televisão, o cartaz, o videoteipe - nada de quadros, estátuas, objetos preciosos.
Não sei.
Houve outras épocas vazias – buracos negros – na História. Você veja as ruínas do esplendoroso período áureo do Egito e o povo miserável que - depois dele - permanece até hoje entre elas. Houve, depois, o Século de Péricles, o Renascimento, a Bauhaus. OK.
Dizem que a virgem que se torna mãe, em todas as religiões, ... é uma representação... humana... de nova Boa Nova que está pra chegar. Acreditando nisso, ouso dizer que esta pandemia está a gerar uma época com outra estrutura: a que vem por aí.