Morrer é verbo depoente em latim. Isto significa que o verbo apresenta uma forma passiva, mas com um sentido ativo. Assim, “mŏrĭor”, primeira pessoa do indicativo infectum de “mŏrī”, “morrer”, não é “eu morro”, embora traduzamos e digamos assim, mas é qualquer coisa como “algo me faz morrer”. Na realidade, ninguém morre, a não ser que provoque deliberadamente a sua morte. É sempre "algo" que nos leva a morrer. Tanto é que o atestado de óbito deve sempre deixar claro qual foi a causa mortis.
Ficamos incomodados pelo fato de que não estamos preparados para enfrentar a morte, sequer pensamos nela, vivemos como se fôssemos eternos e ela fosse uma surpresa. Ora, na sua perspicácia de poeta e na aprendizagem do que é a convivência com a morte, Manuel Bandeira, no poema “Consoada” (Opus 10), nos revela um eu-poético preparado para recebê-la, com uma ceia familiar — significado do título do poema — e ainda nos brinda com dois epítetos que a definem muito bem, porque a completam: “Indesejada das gentes” e “Iniludível”. Esta síntese eufêmico-irônica é magnífica e só a concebe quem estiver preparado para recebê-la, depois de “lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar”. Enfim, não a desejamos, necessariamente, mas não podemos iludi-la.
A lição que Bandeira nos oferece em poesia é a transfiguração de uma realidade que nos escapa. Como desejamos saber cada vez mais sobre o corpo, as necessidades puramente materiais nos dominam ao ponto de nos entulhar de lixo e de falsas necessidades de que temos séria dificuldade de nos livrar.
E o desalinho está estampado em todos nós, no que dizemos e no que fazemos. Tenho acompanhado a reação das pessoas sobre as mortes provocadas neste momento de pandemia. Muitos afirmam crer em Deus, muitos se dizem cristãos, até criticam, numa atitude nada cristã, o cristianismo alheio, situação clássica da trave e do argueiro. Quando a morte acontece, no entanto, a crença em Deus ou a decantada prática cristã desaparecem, fazendo surgir, nas palavras ditas, ressentimentos e mágoas profundas. Precisamos nos definir e entender que a vida pressupõe a morte. São faces da mesma moeda, que é a aprendizagem da existência. Nascemos para morrer, cedo, tarde, de causa natural ou de doença, de acidente ou de morte matada, como diz a sabedoria popular. Todos morreremos um dia. A morte é condição sine qua non. É iniludível, incontornável. Como diria o poeta Augusto dos Anjos:“É a alfândega, onde toda a vida orgânica / Há de pagar um dia o último imposto!” (“Os Doentes”, versos 116-117).
Esta pandemia que vivemos parece nos dizer, na pequenez invisível do vírus, que temos de dar atenção às pequenas ações e nos unir em torno dela. Resmungar, estrugir, vociferar, gritar e espernear não vai mudar a realidade, muito menos nos mudar. Preparemo-nos!