O cinema de Woody Allen representa certamente o que há de mais "genuíno" na arte cinematográfica norte-americana com sotaque nova iorquino. Mas a sua relevância reside antes pela ironia que caracteriza as narrativas do que pela glamourização da vida chique dos habitantes de Manhattan.
Os espectadores dos filmes de Allen se vêem com um perfil semelhante aos seres urbanos de Nova Iorque, Londres, Paris, Tóquio ou São Paulo. Ou seja, Allen responde às expectativas e inquietações da sensibilidade do "homem das multidões", solitário, eremita, mas sobretudo animado pelas emanações misteriosas dos seres imaginários do cinema.
A Rosa Púrpura do Cairo (1985) é sagaz ao conceder vida ao simulacro, ao personagem de ficção, à mitologia das celebridades, o sonho de transcendência na efêmera experiência do consumo, e o faz em preto e branco, colorido e musical.
O filme é importante porque desmonta a ilusão do mito cinematográfico em sua banalidade, mostrando um espelho do espectador extasiado diante da sua própria mitologia, que sai da tela, encarnando o amor, mas também o Mefisto que lhe oferece uma existência absurdamente artificial, e lhe convida para penetrar literalmente na realidade fictícia pelo cinema.
A metalinguagem poética do cinema em A rosa Púrpura possui o seu equivalente em outro filme, que homenageia A Era do rádio (1987), resgatando imagens e sons dos tempos da grande guerra mundial. Ecossistema midiático expandido pelas orquestras, vozes e discos célebres, grandes salões, auditórios, afinação acústica das multidões. A penetração exótica dos idiomas, cancioneiros estrangeiros (como na arte de Carmem Miranda), além da hibridação feliz do rádio e o teatro, geraram os musicais formidáveis que se irradiaram nos anos 30/40.
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